O Dicastério para a Doutrina da Fé divulgou nesta quinta-feira (22) um novo documento que propõe mudanças na atuação pastoral da Igreja Católica diante das dificuldades de transmitir a fé cristã às novas gerações. O texto defende que a evangelização dos adultos receba maior atenção e que o primeiro anúncio do Evangelho, conhecido como kerygma, volte ao centro da ação da Igreja.
Intitulado “Vinde a Mim. Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época”, o documento parte da constatação de que, em algumas regiões do mundo, a transmissão da fé está praticamente interrompida. A publicação apresenta caminhos para anunciar o Evangelho em uma sociedade marcada pela secularização e por profundas transformações culturais.
A proposta retoma uma síntese do primeiro anúncio cristão apresentada pelo Papa Francisco na exortação Evangelii Gaudium: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida por ti para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar”.
Com oito capítulos, além da introdução e da conclusão, o texto reúne reflexões baseadas no Concílio Vaticano II e no magistério dos pontífices, especialmente Francisco e Leão XIV. A elaboração havia sido solicitada diversas vezes por Francisco e ganhou novo impulso após a eleição de Leão XIV, a celebração do Jubileu e a perspectiva do Jubileu da Redenção de 2033.
O documento foi aprovado por Leão XIV em 21 de agosto e é assinado pelo prefeito do dicastério, cardeal Víctor Manuel Fernández, e pelo secretário da Seção Doutrinal, monsenhor Armando Matteo. Segundo o próprio texto, não se trata de uma nota doutrinária, mas de uma proposta para estimular a reflexão e o compromisso pastoral com a transmissão da fé.
Igreja defende maior investimento na evangelização de adultos
Um dos principais pontos do documento é a necessidade de superar uma atuação pastoral concentrada exclusivamente na catequese de crianças e adolescentes. Embora reconheça a família como o primeiro e mais essencial espaço de transmissão da fé, o dicastério observa que esse processo deixou de ocorrer de maneira contínua em muitas comunidades.
Em países de antiga tradição cristã, cresce o número de pessoas batizadas que não vivem as exigências do Batismo, não desenvolvem uma ligação efetiva com a Igreja ou se afastam da prática religiosa.
Diante desse cenário, o documento afirma que a evangelização dos adultos é indispensável, inclusive para que as novas gerações tenham contato com a fé por meio da família e da comunidade.
A reflexão parte de uma questão central: como os adultos poderão transmitir a fé aos mais jovens se eles próprios não a vivem pessoalmente?
O texto também ressalta que a experiência cristã não pode ser reduzida à apresentação de conteúdos doutrinários ou informações religiosas. A transmissão da fé envolve a participação em uma forma de vida eclesial, por meio da qual a pessoa é introduzida progressivamente na experiência cristã.
Secularização e mudanças culturais desafiam a Igreja
O documento analisa transformações sociais que contribuem para a crise na transmissão do cristianismo, sobretudo nos países ocidentais. Entre os sinais apontados está a diminuição do número de pais que apresentam a mensagem do Evangelho aos filhos.
Como consequência, pessoas que passaram pela catequese ou frequentaram ambientes paroquiais podem chegar à idade adulta sem uma ligação consistente com a fé.
Outro aspecto destacado é uma cultura que valoriza a chamada “soberania do eu” e tende a restringir a religião à esfera privada, afastando-a da participação comunitária.
O avanço das tecnologias digitais e da inteligência artificial também integra a análise. Ao abordar os efeitos dessas ferramentas sobre a informação e as relações humanas, o documento recupera uma afirmação de Leão XIV: “O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico”.
Nesse contexto, a Igreja é chamada a compreender as mudanças culturais e a buscar formas de anunciar o Evangelho que dialoguem com a realidade contemporânea.
Kerygma deve ocupar o centro da catequese
Como resposta à crise, o dicastério propõe uma renovação da catequese a partir do kerygma, expressão que designa o primeiro anúncio do Evangelho e a mensagem central da fé cristã.
A intenção é apresentar o amor e a misericórdia de Deus de maneira que cada pessoa compreenda que essa mensagem também se dirige à sua própria vida.
O documento esclarece, porém, que colocar o primeiro anúncio no centro não significa abandonar o depositum fidei, isto é, o depósito da fé transmitido pela Sagrada Escritura e pela Sagrada Tradição. A proposta é fazer com que o anúncio de Cristo ilumine as demais verdades da doutrina católica e favoreça um encontro pessoal e comunitário com ele.
O texto também chama a atenção para o crescimento de conversões e retornos à Igreja em algumas regiões altamente secularizadas. Ao mesmo tempo, identifica dificuldades para que essas pessoas permaneçam na vida cristã.
Por isso, o acolhimento e o acompanhamento dos novos fiéis são apresentados como responsabilidades importantes das comunidades católicas.
Palavra de Deus, liturgia e amizade são caminhos de evangelização
Entre os meios indicados para fortalecer a transmissão da fé estão a leitura da Palavra de Deus, a liturgia e o testemunho cotidiano dos cristãos.
O documento considera urgente incentivar grupos comunitários dedicados à escuta, à meditação, à partilha e à oração com a Bíblia, especialmente em países de antiga evangelização. Essas iniciativas devem complementar a participação na Eucaristia dominical.
A liturgia também é descrita como um espaço privilegiado de encontro com o amor de Deus em Cristo. Para o dicastério, as celebrações não devem se limitar a uma execução formal de ritos, mas precisam permitir que seus sinais sejam compreendidos e alcancem a mente e o coração dos fiéis.
As relações pessoais ocupam igualmente um lugar importante. O texto afirma que os encontros de pessoa a pessoa continuam sendo canais fundamentais para transmitir a fé. Nesse sentido, a amizade pode favorecer o testemunho, a ajuda mútua e a partilha das alegrias e dificuldades da vida.
O documento destaca ainda a importância da santidade, da proximidade com as pessoas e da opção preferencial pelos pobres. A arte e a beleza, especialmente a música, também são apontadas como recursos capazes de contribuir para o anúncio cristão.
Evangelização deve acompanhar todas as etapas da vida
A reflexão do Vaticano considera as particularidades de diferentes fases da existência, da infância à velhice. A proposta é que o anúncio do Evangelho leve em conta as experiências e necessidades próprias de cada etapa.
O documento observa que muitas pessoas entram em contato com a Igreja principalmente durante celebrações ligadas a acontecimentos importantes, como batizados, casamentos e funerais.
Essas ocasiões são apresentadas como oportunidades pastorais para transmitir a mensagem cristã e alcançar pessoas que, por diferentes motivos, estão distantes da comunidade eclesial.
O texto também aborda a inculturação da fé, a Doutrina Social da Igreja, a piedade popular, as peregrinações e as confrarias. A homilia e as atividades de voluntariado são citadas como outras possibilidades de aproximação com a realidade da Igreja.
Outro ponto destacado é a necessidade de ampliar os espaços de participação das mulheres na condução dos processos eclesiais.
O último capítulo reúne testemunhos enviados ao dicastério pelos bispos, com relatos de jovens e adultos que descobriram ou redescobriram Cristo. As experiências são apresentadas como exemplos concretos de transmissão e despertar da fé.
Maria é apresentada como mestra da transmissão da fé
Na conclusão, o documento retoma o convite de Jesus que dá título à publicação: “Vinde a mim”. O texto afirma que, diante das transformações do mundo atual, a missão dos cristãos continua sendo transmitir a luz de Cristo às pessoas que procuram sentido para a própria existência.
A reflexão termina com uma referência a Nossa Senhora, apresentada como “Mestra da transmissão da fé”. Maria é lembrada por ter levado Jesus ao encontro de Isabel e por ter acompanhado o Filho ao longo de sua vida terrena, guardando e meditando em seu coração suas palavras e seus gestos.
O dicastério também destaca que o Evangelho pode ser transmitido por meio de símbolos, experiências, confiança e afeto, reconhecendo a importância da fé mariana presente entre os povos.
Ao final, o documento pede a intercessão de Maria para fortalecer o compromisso da Igreja de anunciar Cristo e aproximar as novas gerações da fé cristã.
Por: Informativo em Foco



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