A terapia hormonal da menopausa (THM) pode aliviar sintomas como ondas de calor, suores noturnos, insônia e secura vaginal, mas o receio de desenvolver câncer ainda afasta muitas mulheres do tratamento. Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a indicação depende de uma avaliação individualizada dos benefícios, dos riscos e do histórico de saúde de cada paciente.
A ginecologista Lúcia Costa Paiva relata que algumas mulheres chegam ao consultório receosas de iniciar a terapia por causa da possível relação com o câncer. Depois de receberem orientações médicas e experimentarem o tratamento, porém, muitas relatam melhora significativa, especialmente na redução das ondas de calor.
A THM consiste na reposição de hormônios, principalmente o estrogênio, utilizado isoladamente ou combinado à progesterona. A indicação pode ocorrer durante a transição para a menopausa ou após a última menstruação, conforme os sintomas e as condições clínicas da paciente.
Apesar dos benefícios, o tratamento não é recomendado para todas as mulheres. A escolha precisa considerar fatores como antecedentes de câncer, doenças cardiovasculares, histórico de trombose e problemas no fígado.
Por que a terapia hormonal ainda causa medo?
Uma das principais razões para a preocupação com a terapia hormonal é um estudo de grande porte conhecido como Women's Health Initiative (WHI), publicado em 2002. A pesquisa avaliou os riscos e benefícios do uso de estrogênio e progesterona em mulheres na pós-menopausa e teve grande repercussão internacional por seus resultados relacionados ao câncer de mama e a outros problemas de saúde.
O endocrinologista Alexandre Hohl, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), considera que a divulgação dos resultados contribuiu para uma redução expressiva na utilização da terapia hormonal.
Segundo o especialista, pesquisas posteriores ajudaram a ampliar o entendimento sobre os efeitos do tratamento, mostrando a importância de considerar a idade, o momento de início, o tipo de hormônio utilizado e as condições clínicas de cada paciente.
A ginecologista Lúcia Costa Paiva também avalia que o medo persiste entre mulheres e profissionais de saúde, mesmo com o avanço das pesquisas. Para ela, a atualização das informações médicas é fundamental para que pacientes que podem se beneficiar da terapia tenham acesso a uma avaliação adequada.
Isso não significa, porém, que os riscos tenham desaparecido. A terapia hormonal exige indicação criteriosa, acompanhamento médico e reavaliações periódicas.
Terapia hormonal aumenta o risco de câncer de mama?
A relação entre a terapia hormonal e o câncer depende de fatores como o tipo de hormônio, a dose, o tempo de uso e o histórico de saúde da paciente.
De acordo com os especialistas citados na reportagem, mulheres que têm ou já tiveram câncer de mama não devem utilizar a terapia hormonal sistêmica da menopausa, devido ao risco associado à exposição hormonal em determinados tipos de tumor.
Lúcia Costa Paiva afirma que o aumento de risco observado em algumas situações é relativamente pequeno em termos absolutos. A médica cita a estimativa de um caso adicional de câncer de mama para cada mil mulheres que utilizam a terapia durante um ano, embora o risco individual varie conforme o esquema terapêutico e as características da paciente.
O histórico familiar também precisa ser considerado, mas não significa automaticamente que a terapia esteja proibida. Mulheres cuja mãe ou irmã teve câncer de mama devem passar por avaliação individualizada para que o médico examine os fatores de risco envolvidos.
Outro cuidado diz respeito ao útero. Nas mulheres que ainda têm o órgão, o uso de estrogênio sistêmico isolado pode estimular o crescimento do endométrio, tecido que reveste o interior do útero, e aumentar o risco de câncer endometrial. Por isso, costuma-se associar progesterona ou outro progestagênio adequado para proteger o endométrio.
A decisão sobre qual tratamento utilizar deve ser tomada com orientação médica, levando em conta os benefícios esperados e os possíveis efeitos adversos.
Quais são as contraindicações da terapia hormonal?
Nem todas as mulheres na menopausa podem receber hormônios. Entre as contraindicações e situações que exigem avaliação especializada estão:
Câncer de mama atual ou histórico da doença;
Histórico de trombose, que exige análise específica dos riscos e das opções terapêuticas;
Infarto ou acidente vascular cerebral (AVC), especialmente em período recente;
Doença hepática ativa, como cirrose.
A lista não substitui a avaliação clínica. O risco pode variar conforme a condição apresentada, o tipo de terapia e a via de administração. Por isso, o médico precisa conhecer o histórico completo da paciente antes de prescrever o tratamento.
O endocrinologista Alexandre Hohl destaca que a decisão deve ser individualizada, inclusive para mulheres que apresentam fatores de risco familiares ou que chegam à menopausa muitos anos antes da idade habitual.
Quando a terapia hormonal é indicada?
A principal indicação da THM é aliviar sintomas da menopausa que afetam a qualidade de vida, como ondas de calor, suores noturnos e alterações do sono. A terapia também pode ajudar em sintomas geniturinários, como a secura vaginal, conforme o tipo de tratamento escolhido.
O tratamento ainda pode ser indicado para mulheres que entram na menopausa precocemente, antes dos 40 anos, inclusive em situações decorrentes da retirada dos ovários ou de tratamentos contra o câncer. Nesses casos, a avaliação considera as necessidades específicas relacionadas à perda antecipada da função ovariana.
Embora algumas pacientes relatem melhora do humor, do ânimo e do cansaço, esses efeitos não significam que a terapia deva ser prescrita exclusivamente para essas finalidades.
A endocrinologista Karen de Marca, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), alerta que a diminuição da libido, por exemplo, não deve ser tratada automaticamente com hormônios. O problema pode estar relacionado a fatores físicos, emocionais e sociais, como ansiedade, depressão, sobrecarga de trabalho e dificuldades no relacionamento.
A investigação da causa é importante para definir a abordagem mais adequada.
Existe uma idade certa para começar ou interromper o tratamento?
O momento de início influencia a avaliação dos benefícios e dos riscos da terapia hormonal. Em geral, mulheres com menos de 60 anos ou que estejam nos primeiros dez anos após a menopausa tendem a apresentar uma relação entre benefícios e riscos mais favorável, desde que não tenham contraindicações.
Isso não significa que todas devam iniciar o tratamento nem que mulheres que ultrapassaram esse período estejam automaticamente impedidas de utilizá-lo. Casos individuais exigem análise dos sintomas, dos fatores de risco e das alternativas disponíveis.
Também não existe uma regra universal que obrigue todas as pacientes a interromper a terapia após determinado número de anos. A continuidade depende de reavaliações periódicas, considerando a resposta ao tratamento, o aparecimento de efeitos adversos e eventuais mudanças no estado de saúde.
Uma alteração suspeita em exames, por exemplo, pode exigir a suspensão temporária da terapia enquanto a situação é investigada. A conduta deve ser definida pelo médico responsável.
Acesso à terapia hormonal ainda é limitado no Brasil
Além do receio relacionado aos riscos, o custo dos medicamentos pode dificultar o acesso ao tratamento. Segundo a reportagem da BBC News Brasil, um estudo brasileiro publicado em 2022, com 1.500 participantes, identificou que apenas uma parcela das mulheres que procuraram atendimento por sintomas da menopausa recebeu indicação de terapia hormonal.
Entre as participantes que relataram sintomas e buscaram atendimento médico, 22,3% receberam prescrição de THM, conforme os dados apresentados no levantamento. O estudo também apontou diferenças no tempo de utilização do tratamento entre grupos socioeconômicos.
Lúcia Costa Paiva destaca que a disponibilidade dos medicamentos é um obstáculo, uma vez que a terapia hormonal da menopausa não é oferecida rotineiramente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), segundo o relato apresentado na reportagem.
O custo pode levar algumas mulheres a interromper o tratamento antes do tempo necessário para avaliar seus benefícios. Por isso, além da orientação médica, o acesso aos medicamentos é uma questão importante para a saúde pública.
Experiências com o tratamento variam entre as mulheres
Os relatos reunidos pela BBC News Brasil mostram que a resposta à terapia hormonal pode ser diferente de uma paciente para outra.
Sônia Santos, de 66 anos, conta que enfrentava ondas de calor frequentes e intensas, inclusive durante a noite, prejudicando o sono e a rotina. Depois de iniciar o tratamento com adesivos hormonais, percebeu melhora na qualidade de vida e redução da frequência dos sintomas. Após cerca de dez anos de uso, passou por uma reavaliação médica para reduzir a dose e analisar a possibilidade de interromper a terapia.
Já Ucha Aratangy, de 58 anos, teve uma experiência negativa. Ela começou a utilizar um adesivo hormonal aos 54 anos, mas apresentou vômitos intensos poucos dias depois. Após retirar o produto e conversar com profissionais de saúde, decidiu não tentar outra formulação.
As duas experiências reforçam que não existe uma resposta única ao tratamento. Enquanto algumas mulheres apresentam melhora importante dos sintomas, outras podem ter efeitos adversos ou optar por alternativas após uma avaliação médica.
Terapia hormonal exige acompanhamento profissional
A terapia hormonal da menopausa não deve ser confundida com o uso indiscriminado de hormônios para fins estéticos ou para melhorar o desempenho físico. O uso sem indicação e sem supervisão pode trazer riscos, incluindo complicações cardiovasculares e outros efeitos adversos.
Para mulheres que apresentam sintomas importantes, a recomendação é procurar um profissional de saúde, discutir as opções disponíveis e avaliar os riscos e benefícios de cada abordagem.
A decisão de começar, manter ou interromper a terapia deve ser individualizada. O acompanhamento médico periódico, com exames adequados à idade e ao histórico clínico, ajuda a identificar mudanças na saúde e a ajustar o tratamento quando necessário.
Por: Informativo em Foco



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