Estudo com 2.603 mulheres relaciona menopausa mais precoce a maior acúmulo de alterações cerebrais e declínio cognitivo acelerado.
Mulheres que entram na menopausa mais cedo podem apresentar uma trajetória menos favorável de envelhecimento cerebral décadas depois. É o que sugere um estudo publicado em agosto na Jama Network Open, que acompanhou 2.603 mulheres por até 18 anos.
A pesquisa encontrou uma associação entre a idade em que ocorre a menopausa e mudanças posteriores na estrutura e no funcionamento do cérebro. Os resultados, entretanto, não significam que a menopausa precoce cause Alzheimer ou demência.
O principal achado envolveu as chamadas hiperintensidades da substância branca, pequenas áreas que aparecem mais claras em exames de ressonância magnética.
Menopausa mais cedo foi associada a alterações cerebrais
Entre as mulheres que tiveram menopausa espontânea, ou seja, aquela que acontece naturalmente e não é provocada por cirurgia ou tratamento, uma diferença de cinco anos na idade da menopausa esteve associada a aproximadamente 15% mais volume de hiperintensidades da substância branca ao longo de uma década.
A substância branca é formada principalmente por fibras nervosas responsáveis pela conexão entre diferentes regiões do cérebro. Essas estruturas permitem a comunicação entre as áreas cerebrais e participam de funções como memória, atenção e movimento.
O surgimento dessas alterações pode fazer parte do processo normal de envelhecimento. As hiperintensidades podem estar relacionadas a mudanças nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro e a danos nas fibras nervosas.
A presença dessas alterações, isoladamente, não significa que uma pessoa tenha demência ou necessariamente desenvolverá a doença de Alzheimer.
Maior volume de alterações pode indicar pior saúde cerebral
A relevância das hiperintensidades está relacionada principalmente à quantidade e à evolução ao longo dos anos.
Segundo o estudo, um volume maior dessas alterações e seu acúmulo progressivo estão associados a uma pior saúde cerebral. Elas também podem acompanhar problemas de memória e cognição, além de outras manifestações neurológicas.
Na pesquisa, quanto mais cedo ocorreu a menopausa espontânea, maior foi a velocidade de acúmulo dessas alterações cerebrais.
A associação permaneceu mesmo depois que os pesquisadores levaram em consideração fatores como idade, escolaridade, pressão arterial, índice de massa corporal e outros aspectos relacionados à saúde.
Estudo também identificou declínio cognitivo
Além das imagens obtidas por ressonância magnética, os pesquisadores avaliaram o desempenho cognitivo das participantes.
As mulheres que haviam passado pela menopausa mais cedo apresentaram um declínio mais acelerado da cognição global e, especialmente, da memória episódica, utilizada para recordar acontecimentos e experiências pessoais.
A pesquisa também encontrou uma associação entre a idade da menopausa e o momento do diagnóstico de Alzheimer.
De acordo com o modelo utilizado pelos pesquisadores, uma diferença de dez anos na idade em que ocorreu a menopausa esteve associada a aproximadamente 1,8 ano a menos até o diagnóstico da doença.
A idade média de diagnóstico de Alzheimer entre as participantes foi de 88,4 anos.
Menopausa precoce não significa causa de Alzheimer
Apesar dos resultados, os pesquisadores não afirmam que a menopausa precoce provoque Alzheimer.
O estudo tem caráter observacional e identifica associações entre características acompanhadas ao longo do tempo. Dessa forma, os resultados não permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Uma das possibilidades levantadas pelos pesquisadores envolve o estrogênio. Durante a menopausa, os ovários reduzem progressivamente a produção do hormônio, que participa de processos relacionados ao funcionamento cerebral, ao metabolismo energético e à regulação da inflamação.
A redução hormonal poderia, em tese, contribuir para mudanças na trajetória de envelhecimento do cérebro.
Porém, essa não é a única hipótese considerada. Outra possibilidade é que um processo de envelhecimento biológico mais acelerado esteja relacionado tanto à ocorrência mais precoce da menopausa quanto ao surgimento posterior de alterações cerebrais.
Pesquisadores analisaram dados de estudos de longo prazo
Para realizar a análise, os autores combinaram informações do Religious Orders Study e do Rush Memory and Aging Project, duas pesquisas de longo prazo voltadas ao envelhecimento e à cognição.
Das 2.603 mulheres incluídas na análise, 774 realizaram exames de ressonância magnética repetidos, o que permitiu aos pesquisadores acompanhar mudanças na estrutura cerebral durante o período de acompanhamento.
As participantes foram divididas entre mulheres que tiveram menopausa espontânea e aquelas que passaram por menopausa cirúrgica.
Os resultados apresentaram diferenças entre os grupos. A associação entre menopausa mais precoce e maior acúmulo de hiperintensidades da substância branca foi especialmente observada entre as mulheres com menopausa espontânea.
Por outro lado, as relações com o declínio cognitivo e com o intervalo até o diagnóstico de Alzheimer foram mais acentuadas entre as participantes que passaram por menopausa cirúrgica.
Estudo tem limitações
Os autores destacam que os resultados reforçam a necessidade de compreender melhor a relação entre as mudanças hormonais da menopausa e o envelhecimento cerebral.
O estudo, entretanto, não permite concluir se retardar a menopausa ou alterar os níveis de estrogênio poderia prevenir as alterações identificadas.
A pesquisa também apresenta limitações. A idade em que ocorreu a menopausa foi informada pelas próprias participantes, e a população analisada tinha características demográficas que podem limitar a aplicação dos resultados a mulheres de outros grupos.
Além disso, por se tratar de uma coorte observacional, não é possível descartar completamente a influência de outros fatores sobre as associações encontradas.
Assim, o estudo não estabelece uma relação direta entre menopausa precoce e demência. O trabalho acrescenta, porém, evidências para a compreensão de como a idade em que ocorre a transição reprodutiva pode estar relacionada à trajetória de envelhecimento do cérebro.
Por: Informativo em Foco



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