Especialistas alertam para riscos de vídeos gerados por inteligência artificial no YouTube infantil, que podem afetar atenção, criatividade e desenvolvimento.
Vídeos produzidos com inteligência artificial (IA) estão ocupando cada vez mais espaço nas recomendações do YouTube voltadas ao público infantil e despertam preocupação entre pesquisadores e especialistas em desenvolvimento infantil. Conteúdos com personagens que mudam de aparência, músicas com letras sem sentido e cenas hiper-realistas criadas por IA têm sido sugeridos pelo algoritmo da plataforma, mesmo após buscas por temas populares entre crianças, como Roblox, Minecraft e animais.
Em um teste realizado pela BBC News Brasil, bastaram cerca de 15 minutos de navegação pelos vídeos curtos da plataforma para que conteúdos desse tipo começassem a aparecer. Produzidos em grande escala e replicados por diversos canais, muitos deles acumulam dezenas ou até centenas de milhares de visualizações.
Conteúdos são produzidos em massa
Especialistas classificam esse tipo de material como "AI slop", expressão utilizada para definir conteúdos de baixa qualidade produzidos em massa com ferramentas de inteligência artificial.
Segundo pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil, um dos fatores que impulsionam a disseminação desses vídeos é o modelo econômico das plataformas, que recompensa conteúdos capazes de gerar visualizações e retenção de audiência.
Além disso, muitos criadores de conteúdo apresentam o nicho infantil como uma oportunidade de monetização, incentivando a produção em larga escala desse tipo de vídeo.
Estudo identificou milhares de vídeos
Uma pesquisa conduzida pelo professor André Mintz, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a estudante Juno Bozzi, analisou aproximadamente 17 mil vídeos encontrados por meio de palavras-chave relacionadas à inteligência artificial e ao conteúdo infantil.
Após a filtragem, os pesquisadores identificaram diversos formatos de vídeos destinados às crianças, incluindo:
- músicas infantis com imagens geradas por IA;
- histórias adaptadas;
- conteúdos educativos, como alfabetização;
- vídeos religiosos;
- animações que transformam personagens conhecidos em versões infantis criadas por inteligência artificial.
Segundo Mintz, muitos desses materiais apresentam imagens repetitivas, estereotipadas e pouco elaboradas.
"O que chama a atenção é um certo desprezo pelo espectador infantil, de colocar qualquer coisa e confiar que a criança vai aceitar", afirmou o pesquisador.
Especialistas alertam para impactos no desenvolvimento
Rachel Franz, diretora do programa Young Children Thrive Offline, da organização Fairplay, afirma que crianças pequenas ainda não conseguem distinguir claramente fantasia e realidade.
Segundo ela, o contato frequente com vídeos produzidos por IA pode influenciar o desenvolvimento cerebral em uma fase considerada decisiva para o aprendizado.
"O cérebro das crianças atinge cerca de 90% do tamanho adulto até os cinco anos, e tudo o que elas vivenciam nesse período pode impactar seu desenvolvimento pelo resto da vida", explicou.
Ela destaca ainda que esse tipo de conteúdo costuma ser criado para prender a atenção, e não para ensinar, além de reduzir o tempo dedicado a brincadeiras, interação social e outras atividades importantes para o desenvolvimento infantil.
Dificuldade para separar fantasia da realidade
A fonoaudióloga e psicopedagoga Telma Pantano, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq/HCFMUSP), afirma que os efeitos desse consumo já aparecem no atendimento clínico.
Segundo a especialista, muitas crianças apresentam dificuldade para distinguir acontecimentos reais de situações fictícias.
Ela explica que áreas do cérebro responsáveis pelo pensamento crítico, autorregulação e tomada de decisões continuam em desenvolvimento durante toda a infância, tornando crianças menores mais vulneráveis a esse tipo de conteúdo.
Pantano também alerta para o impacto na criatividade.
Segundo ela, quando as imagens chegam prontas, o cérebro deixa de construir representações mentais próprias, reduzindo o estímulo à imaginação.
Algoritmos favorecem esse tipo de conteúdo
Para André Mintz, o problema não está apenas na existência desses vídeos, mas também na forma como o algoritmo das plataformas funciona.
Segundo ele, conteúdos que geram audiência continuam sendo recomendados pelo sistema, independentemente da qualidade.
Rachel Franz acrescenta que recursos como reprodução automática e recomendações sucessivas tornam ainda mais difícil limitar o tempo de exposição das crianças às telas.
YouTube afirma combater conteúdos de baixa qualidade
Em nota enviada à BBC News Brasil, o YouTube informou que combater conteúdos de baixa qualidade produzidos com inteligência artificial é uma prioridade da plataforma.
Segundo a empresa, vídeos gerados por IA podem ser monetizados desde que sejam considerados originais, atendam às diretrizes da comunidade e informem quando utilizarem conteúdo sintético ou alterado.
A plataforma também afirmou adotar regras mais rígidas para conteúdos destinados ao público infantil e informou que remove vídeos marcados como feitos para crianças quando eles não atendem aos padrões de qualidade estabelecidos.
Apesar disso, especialistas apontam que identificar automaticamente conteúdos produzidos com inteligência artificial ainda representa um grande desafio para as plataformas digitais.
Por: Informativo em Foco



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