Casos de mortes precoces de fisiculturistas voltam a chamar atenção para os riscos do uso de anabolizantes e seus impactos na saúde cardíaca.
As mortes precoces de fisiculturistas voltaram a levantar o debate sobre os riscos do uso de anabolizantes esteroides e seus efeitos sobre o coração. Casos registrados nos últimos anos, tanto no Brasil quanto no exterior, têm chamado a atenção de especialistas, que alertam para o aumento da incidência de doenças cardíacas entre atletas da modalidade.
Um dos episódios mais conhecidos é o do norte-americano Dallas McCarver, morto em 2017, aos 26 anos. A necropsia revelou que seu coração pesava 833 gramas, mais que o dobro do peso considerado normal para um homem adulto.
Coração apresentava alterações graves
Cinco meses antes de morrer, Dallas McCarver quase desmaiou durante uma competição após enfrentar problemas respiratórios por várias semanas. Ele procurou atendimento médico e recebeu orientação para consultar um cardiologista.
Pouco tempo depois, foi encontrado inconsciente em casa e morreu cerca de uma hora após ser socorrido.
O laudo apontou espessamento do ventrículo esquerdo, responsável por bombear sangue para todo o corpo, além de acúmulo de placas de gordura nas artérias.
A médica-legista responsável pela necropsia concluiu que o uso prolongado de anabolizantes contribuiu para a morte. O exame toxicológico identificou níveis de testosterona sintética mais de 30 vezes acima do limite considerado normal.
Casos recentes aumentam preocupação
O debate voltou a ganhar força após as mortes de fisiculturistas brasileiros como Mailson Araújo, de 35 anos, Gabriel Ganley, de 22, Edson da Silva Ferreira, de 40, e Wanderson da Silva Moreira, de 30 anos.
Em diferentes circunstâncias, todos sofreram problemas cardíacos graves ou morte súbita.
Estudos apontam maior risco cardíaco
Um estudo publicado no European Heart Journal, que acompanhou mais de 20 mil fisiculturistas profissionais e amadores durante 16 anos, identificou que atletas profissionais apresentam uma taxa de morte súbita cardíaca cinco vezes maior que a dos competidores amadores.
Entre participantes do Mr. Olympia, a pesquisa registrou sete mortes a cada 100 atletas, com idade média de apenas 36 anos.
Outra pesquisa, publicada em 2025 na revista Circulation, acompanhou 1.189 homens usuários de anabolizantes por 11 anos. Os resultados mostraram risco quase nove vezes maior de cardiomiopatia, além de aumento significativo na incidência de infarto e insuficiência cardíaca.
Especialistas explicam o impacto dos anabolizantes
Segundo o cardiologista Luiz Eduardo Fonteles Ritt, existe uma diferença entre o aumento fisiológico do coração provocado pelos treinos intensos e as alterações causadas pelos anabolizantes.
Enquanto a adaptação natural tende a regredir quando o atleta interrompe os treinamentos, o uso dessas substâncias pode provocar dilatação do coração, perda da capacidade de contração, insuficiência cardíaca e danos permanentes.
O endocrinologista Clayton Macedo afirma que fisiculturistas naturais também podem apresentar aumento do músculo cardíaco, mas, em geral, de forma muito menos intensa e sem os desfechos graves observados entre usuários de esteroides.
"Não existe forma segura de usar anabolizantes"
O ex-fisiculturista e criador de conteúdo Rodrigo Góes contou que utilizou anabolizantes com acompanhamento médico após anos competindo de forma natural.
Segundo ele, apesar dos ganhos físicos rápidos, enfrentou efeitos colaterais como queda de cabelo, insônia, estresse e alterações psicológicas.
Para Góes, não existe uso totalmente seguro dessas substâncias.
"Não existe forma segura de usar esteroides anabolizantes. O que o médico faz é controlar os danos. Mas haverá danos", afirmou.
Falta de dados dificulta dimensionar o problema
Especialistas destacam que o Brasil não possui um levantamento nacional sobre mortes relacionadas ao uso de anabolizantes.
Além disso, exames toxicológicos de rotina nem sempre conseguem identificar essas substâncias, já que possuem estrutura semelhante aos hormônios produzidos naturalmente pelo organismo.
Com isso, muitos atestados de óbito registram apenas a causa imediata, como parada cardíaca ou cardiomiopatia, sem estabelecer relação direta com o uso de anabolizantes.
Por: Informativo em Foco



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