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16.4.20

Pandemia de coronavírus pode mudar mercado do futebol mundial

Especialistas afirmam que a pandemia de coronavírus pode ter mudado de maneira irremediável o mercado do futebol.

Pixabay (Imagem ilustrativa)
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os planos dos clubes para a próxima janela de transferências deveriam estar prontos. Os compradores teriam seus objetivos identificados ou acordos fechados. Os vendedores esperariam pelo dinheiro que, na maioria das vezes, serviria para evitar que o balanço fique no vermelho, o que é muito comum no Brasil. Essa perspectiva ficou no passado.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a pandemia de coronavírus pode ter mudado de maneira irremediável o mercado do futebol.
"Havia uma bolha [nos valores das transferências] e ela ia estourar a qualquer momento. Estourou da pior maneira possível. Ouço jogadores, clubes e agentes falando 'ah, quando as coisas voltarem ao normal...'. Esquece. Nada será como antes. O futebol não será o que foi no passado. Esta é uma crise sem precedentes", afirma Marcos Motta, advogado especializado em direito esportivo internacional e que tem como clientes alguns dos maiores empresários do esporte mundial.
O futebol está parado desde março por causa do novo coronavírus. Dirigentes de times de todos os continentes estão desesperados para que os jogos retornem, mesmo que com portões fechados. Isso por causa do dinheiro. A multinacional de auditoria KPMG estima que as cinco principais ligas nacionais da Europa (Alemanha, Espanha, Inglaterra, Itália e França) vão perder US$ 4,33 bilhões (R$ 22,3 bilhões) se a temporada não for finalizada dentro de campo.
Apenas a Premier League, dona dos contratos de televisionamento mais lucrativos do planeta, teria de pagar multa de quase US$ 900 milhões (R$ 4,63 bilhões).
"Eu não acredito que veremos durante algum tempo transferências de 100 ou 150 milhões de euros. Os negócios vão continuar acontecendo, mas em um patamar menor. Retomar o mercado do futebol vai depender de muito trabalho e criatividade", disse, por meio de sua assessoria de imprensa, Giuliano Bertolucci, o agente brasileiro com melhor relação nos principais clubes do Velho Continente.
A janela europeia, que sempre movimenta mais dinheiro, estava programada para abrir em 1º de julho e ficaria assim (em quase todos os países) até 31 de agosto. No ano passado, ela movimentou US$ 6 bilhões (R$ 31 bilhões na cotação atual) nas mesmas cinco principais ligas do continente, segundo estudo da Deloitte Sports Business.
Esse assunto gera suspense por causa da doença. Não se sabe quando a janela vai abrir ou se isso acontecerá. A Fifa deixou aberta às associações nacionais a possibilidade de estenderem os vínculos dos atletas com suas equipes.
Alemanha e Inglaterra descartaram encerrar a temporada por decisão administrativa, sem os resultados em campo. A Bundesliga planeja retornar em maio, apoiada em princípio no sistema de teste de coronavírus em massa na população adotado pelo governo do país. A Premier League acredita que isso será possível no Campeonato Inglês apenas em junho, na melhor das hipóteses.
A indefinição e a crise financeira estão também no Brasil, onde há a mesma determinação para jogar, nem que seja com portões fechados. A Globo ainda não pagou a última parcela dos direitos de transmissão dos principais estaduais. Apenas em São Paulo, o número está em cerca de R$ 30 milhões.
Times que precisam vender atletas para fechar as contas podem sofrer.
"Flamengo, Palmeiras e Athletico são os três clubes que têm caixa e conhecem o nosso mercado interno. Mesmo que a janela [de transferências] seja estendida, esta parada vai prejudicar a performance porque é mais difícil avaliar [os jogadores] e os preços devem baixar. Teremos uma guerra de ideias entre clube vendedor e clube comprador. Sem dúvida as equipes precisarão se readequar", analisa Luiz Paulo Chignall, empresário que tem entre seus clientes o técnico do Corinthians, Tiago Nunes.
"Vender jogador, sempre temos de vender. Isso não tem dúvida. A venda do Rodrigo nos ajudou muito a fechar as contas", constata o presidente do Santos, José Carlos Peres, citando a negociação do atacante com o Real Madrid, em 2018, por R$ 172 milhões.
Há também o impacto nos salários, que se tornou motivo de controvérsia na Europa. No Brasil há o potencial para acontecer o mesmo.
"Qualquer negociação sobre salário tem de passar pelo sindicato, senão a gente entra na Justiça. Tem de ser uma solução negociada, não de cima para baixo", declara o presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo, Rinaldo Martorelli.
A entidade nacional da categoria, a Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Nacionais de Futebol), rejeitou no mês passado propostas dos clubes e da CBF para reduzir os vencimentos dos atletas em 25%.
A tendência mundial é que os salários sejam achatados. Principalmente nas pequenas agremiações.
"Os clubes vendedores perderam o poder de barganha, sem dúvida. Vários vão usar isso na hora de definir salários de novos jogadores ou na renovação de contrato, ainda mais na América do Sul. A lógica de mercado dos times sul-americanos é a da venda de jogadores. Na Europa, a história é outra. A receita do Barcelona é de 1 bilhão de euros sem contar negociação de atletas. E no Brasil?", questiona Marcos Motta.
Como o futebol é uma parte da sociedade, as consequências do novo coronavírus podem ser parecidas. Se a pandemia fez países fecharem suas fronteiras e impedirem a entrada e saída de pessoas, o mundo da bola terá de voltar o olhar para o mercado interno. Principalmente as nações que costumam ser mais vendedoras, como Brasil e Argentina.
Há clubes que já começam a fazer esse trabalho. "As dificuldades serão maiores porque o mercado terá pouca ativação. Não acontecerão grandes movimentações. Tenho certeza que haverá uma grande reflexão sobre tudo no futebol, especialmente no Brasil. Vai ter uma reeducação financeira. Os casos mais viáveis para os clubes se reforçarem serão no mercado interno, com jogadores em fim de contrato nos estaduais", acredita Paulo Angioni, diretor executivo de futebol do Fluminense.
Estaduais que, por enquanto, ninguém sequer sabe quando vão acabar.
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