‘Discute-se muito política – talvez de forma superficial. Desejo que as pessoas reflitam mais sobre o passado’, afirma Marcelo Gomes. Longa do diretor pernambucano disputa Festival de Berlim.
Sabe aquela figura do Tiradentes mito, herói, tipo Jesus Cristo? Então: esquece. Em “Joaquim”, a ideia é desfazer essa aura quase transcendental que cerca a figura histórica e “construir um personagem humano, brasileiro, com suas imperfeições, contradições e afetos”. A descrição é de Marcelo Gomes, diretor do filme que está na corrida pelo Leão de Ouro no 67º Festival de Berlim, um dos maiores eventos de cinema do mundo. A edição 2017 começa na quinta-feira (9).
O que temos aqui é um Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792) menos
mártir da Inconfidência Mineira e mais gente como a gente. Mas veja bem:
uma gente do século XVIII, ou seja, vivendo numa precariedade sem fim.
Em entrevista, Gomes explica que quis fazer uma
crônica do cotidiano do Brasil colonial, período que “causou fraturas
cruéis na nossa sociedade até os dias de hoje”. Lista, então, o que
chama de “mazelas”, como escravidão e um dia a dia de penúria extrema.
“Espero que os espectadores tenham uma relação de amor e ódio sentindo o
filme. Vivemos num momento em que se discute muito política – talvez de
forma leviana, superficial. O que desejo é que as pessoas reflitam mais
sobre o nosso passado e discutam política de uma forma profunda, se
possível. E tentando apontar caminhos para nosso futuro.”
Diretor de “Cinemas, aspirinas e urubus” (2005), Gomes comemorou a
seleção para Berlim por causa da vocação política do festival. Ele
explica que entrou no projeto “Joaquim” a convite de uma produtora
espanhola que, em 2008, o chamou para tocar um segmento numa série de
longas sobre “libertadores da América”. Assumiu a missão de retratar
Tiradentes. Missão difícil, inclusive: o cineasta ri ao lembrar que teve
gente na equipe que pegou carrapato durante as filmagens.
Marcelo Gomes –
É fantástico. Primeiramente porque “Joaquim” tem um orçamento pequeno,
R$ 2,6 milhões, mal dá para divulgação. Para um filme de época, é muito
pouco dinheiro, né? No Festival de Berlim, temos a possibilidade de dar
uma visibilidade imensa ao nosso filme, é maravilhoso. Segundo, porque o
Berlim tem uma tradição de se interessar por filmes que, de uma forma
ou de outra, têm uma temática política. Na história da participação do
Brasil no festival, tem filmes como “Central do Brasil” (1997) e “Os
fuzis” (1964), do Ruy Guerra.
Marcelo Gomes – O filme fala do início da situação colonial no século XVIII. Eu me interessei muito em retratar o dia a dia daquele Brasil que estava se formando, as vilas de Minas Gerais. Falamos sobre as fraturas sociais provocadas pelo processo cruel de colonização. Fraturas essas que promoveram consequências presentes até hoje na nossa sociedade.
Marcelo Gomes – Teve um livro que me impressionou: “Os desclassificados do ouro”, da Laura de Mello e Souza. Até a convidei para ser consultora. É um livro interessante, com documentos, e você pode descobrir sobre o dia a dia daquela sociedade. As pessoas pediam autorização ao padre para faltar à missa de domingo porque não tinham mais roupa! As pessoas tinham uma roupa só – talvez duas. Era um Brasil muito precário, rude, com problemas seriíssimos. Isso está impregnado no filme. “Joaquim” não é um filme histórico com aquele glamour do passado, direção de arte suntuosa, grandes vestidos. Retrata pessoas sujas, que tomavam pouco banho, porque as condições eram precárias. Isso tudo está presente dentro de uma narrativa ficcional.
Marcelo Gomes – Na época, existia uma administração pública da coroa portuguesa. Tem até uma frase no filme: “Quando o ouro chega, primeiro destrói a terra e depois destrói o homem”. Existia grande quantidade de contrabandistas, de pessoas que sonegavam impostos e até funcionários da coroa corruptos. Esse é um dos 50 elementos ainda presentes (risos). Teve expulsão dos índios naquela região das minas. Expulsaram-se os índios, que foram tratados até como animais. E, depois, veio a escravidão, que causou mazelas cruéis na nossa sociedade até hoje. Em cada momento do filme, você vai sentindo essas relações sociais cercadas de preconceito, de ganância...
Marcelo Gomes – Vivemos uma eterna relação de amor e ódio. Tem pessoas lá que estão querendo lutar por liberdade e revolução, e outras que não, nem tanto, que estão se apropriando disso. Tem de tudo. Espero que os espectadores tenham uma relação de amor e ódio. Vivemos num momento em que se discute muito política – talvez de forma leviana, superficial. O que desejo, com esse filme, é que as pessoas reflitam mais sobre o nosso passado e discutam política de uma forma profunda. E tentando apontar caminhos para nosso futuro. Foram mazelas que aconteceram na África, durante a colonização, na Ásia, em países da América Latina... Talvez por isso seja tão importante mostrar “Joaquim” numa janela que tenha uma visibilidade tão grande como o Festival de Berlim, para o mundo inteiro, não só o Brasil.
G1


