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12.10.26

Violência política de gênero cresce e atinge mulheres nas eleições de 2026

Dados do TSE e do Disque 180 revelam aumento da violência política contra mulheres, com destaque para ataques a candidatas durante as eleições de 2026.

A violência política de gênero tem registrado crescimento no Brasil durante o período eleitoral de 2026. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que o número de processos relacionados a esses ataques passou de 15, em 2022, para 177 neste ano, um aumento de mais de 11 vezes.

O cenário também aparece em levantamentos de organizações de direitos humanos e nos registros da Central de Atendimento à Mulher, o Disque 180. Os dados indicam que mulheres seguem entre os principais alvos de agressões, ameaças e intimidações no ambiente político.

A discussão ganha destaque em outubro, mês em que é lembrado o Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher, celebrado no sábado (10). A data marca o movimento realizado em 1980, quando mulheres se reuniram nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo para protestar contra o aumento dos crimes de gênero no país.

Mulheres foram vítimas de mais da metade dos casos registrados

Um levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global identificou 134 episódios de violência política durante a campanha eleitoral até o primeiro turno, realizado no domingo (4). Isso representa uma ocorrência a cada nove horas. Do total, 70 casos tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 52,2%.

Quando considerados os 102 episódios direcionados exclusivamente a pessoas candidatas, 60 tiveram mulheres como alvo, correspondendo a 58,8%. Embora representem aproximadamente um terço das candidaturas, elas foram vítimas em mais da metade dos registros desse grupo.

Os dados do Disque 180 também mostram a dimensão do problema. Entre janeiro e agosto de 2026, foram contabilizadas 1.564 denúncias de violência política contra mulheres.

Mulheres pretas e pardas concentraram a maior parte dos registros. Foram 842 denúncias envolvendo vítimas desses grupos, mais de 53% do total. As mulheres brancas apareceram em 590 registros, o equivalente a 37,72%. Outras 132 denúncias, ou 8,44%, envolveram mulheres de outras raças.

No fim de setembro, organizações da sociedade civil entregaram ao TSE um documento com denúncias de agressões contra candidatas nas eleições de 2026. Os relatos incluem violência física e verbal, além de ameaças de morte e estupro.

Deputada eleita relata ameaças de morte e violência sexual

O caso da deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) exemplifica os relatos de violência política durante a campanha. Nesta semana, ela denunciou à Polícia Civil ameaças de morte e violência sexual recebidas no período eleitoral.

Segundo a parlamentar, as mensagens continham ataques machistas e racistas, além de ameaças de estupro. Informações pessoais, como endereço residencial, número de telefone e documentos, também teriam sido expostas. Diante da situação, o partido contratou segurança armada para protegê-la.

Ana Elisa recebeu 524.219 votos e foi a segunda candidata mais votada para a Câmara dos Deputados em Minas Gerais, atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL). Ela também se tornou a mulher mais votada da história do estado para o cargo e a deputada federal mais jovem já eleita no Brasil.

Ministério das Mulheres relaciona ataques à misoginia

A secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, relaciona a violência política contra mulheres a um problema estrutural da sociedade.

Segundo ela, o cenário está associado à misoginia, caracterizada pelo ódio contra mulheres e meninas, e a outras formas de violência, como a doméstica e o feminicídio.

A secretária também chama a atenção para agressões que vão além das ameaças diretas à vida. De acordo com sua avaliação, práticas cotidianas e veladas podem funcionar como mecanismos para desestimular a participação feminina na política.

Casos históricos evidenciam diferentes formas de violência

A violência contra mulheres que ocupam espaços de poder já foi registrada em episódios de grande repercussão no país.

Em março de 2018, a vereadora Marielle Franco (PSol-RJ), mulher negra e LGBTQIA+, foi assassinada a tiros em uma via pública do Rio de Janeiro.

Em dezembro de 2020, a deputada estadual paulista Isa Penna (PSol-SP) foi apalpada na região do seio pelo então deputado Fernando Cury durante uma sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo. Cury foi condenado por importunação sexual.

Outro episódio ocorreu em 2014, quando a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) ouviu do então deputado Jair Bolsonaro que não mereceria ser estuprada por ser “muito feia” e que não fazia seu “tipo”.

Também foram relatadas interrupções recorrentes das falas das senadoras Simone Tebet e Soraya Thronicke durante a CPI da Covid-19, em 2021. Na ocasião, elas denunciaram o tratamento recebido nas sessões e o uso do rótulo de “nervosas”.

Em julho deste ano, a deputada federal Talíria Petrone (PSol-RJ) teve a escolta armada retirada, mesmo diante de ameaças atribuídas a milicianos.

Como denunciar casos de violência política contra mulheres

Mulheres vítimas de violência política e pessoas que tenham conhecimento de ocorrências desse tipo podem procurar canais institucionais do Poder Executivo, do Ministério Público Eleitoral, da Justiça Eleitoral e das autoridades policiais.

Entre as opções disponíveis estão:

  • Disque 180: atendimento gratuito, sigiloso e humanizado, durante 24 horas por dia, todos os dias da semana. As denúncias podem ser feitas pelo telefone 180, pelo WhatsApp (61) 9610-0180, pelo e-mail central180@mulheres.gov.br ou por videochamada em Libras.

  • Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público: informações disponíveis no site oficial do CNMP.

  • Procuradoria-Geral Eleitoral: denúncias podem ser encaminhadas pela Sala de Atendimento ao Cidadão do Ministério Público Federal.

  • Ouvidoria Nacional da Mulher do Conselho Nacional de Justiça: orientações disponíveis no portal do CNJ.

  • Polícia Federal: comunicação de crimes pelo canal Comunica PF ou nas delegacias estaduais.

  • Defensoria Pública da União: o Grupo de Trabalho Mulheres oferece assistência e orientação jurídica.

Em situações de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.

Por: Informativo em Foco

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