Filha do cineasta José Mojica, o Zé do Caixão, denuncia dois médicos da Prevent Senior por conduta irregular em internação do pai

 Operadora nega e diz ter feito 'todos os investimentos possíveis' para o tratamento.

A cineasta Liz Marins, filha do também cineasta José Mojica, conhecido como Zé do Caixão, denunciou dois médicos da operadora de saúde Prevent Senior pelo atendimento prestado ao pai durante a internação dias antes de morrer, aos 83 anos, no Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo.

“A minha denúncia é contra dois médicos, um que tirou ele da semi-uti quando ele estava estabilizado, grave, mas estabilizado, e mandou pro quarto e um médico que vendo o meu pai com a saturação despencando no quarto, não deu o atendimento imediato e ficou tentando nos convencer a deixá-lo morrer”, afirmou Liz em entrevista à GloboNews.

Em nota, a Prevent Senior negou as irregularidades.

"Os prontuários do paciente demonstram que todos os investimentos possíveis foram realizados no tratamento do Sr. Mojica. Os detalhes dos prontuários não podem ser divulgados por razões legais, mas é possível afirmar que o paciente tinha uma série de comorbidades que agravaram seu quadro de saúde ao longo dos anos".

Questionado, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) afirmou que só apura as denúncias quando é formalmente acionado, o que não aconteceu no caso dos profissionais citados.

O Conselho ainda alegou não poder fazer julgamentos sem antes ter informações detalhadas, como acesso ao prontuário do paciente.

Atriz Liz Marins se despede do pai, conhecido pelo personagem Zé do Caixão, nesta quinta-feira (20) — Foto: Celso Tavares/G1

A atuação da Prevent Senior durante a pandemia da Covid-19 se tornou um escândalo investigado no Congresso e em outras instâncias.

A empresa é investigada na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado por conduta antiética e anticientífica na pandemia. Pesam sobre ela denúncias de alteração de prontuários médicos para maquiar mortes por covid-19, realização de pesquisa médica sem consentimento de pacientes e distribuição de medicamentos para tratamento precoce da doença – que não têm qualquer eficácia comprovada.

Internação do cineasta

Mojica teve uma broncopneumonia pulmonar no dia 25 de janeiro de 2020 e foi internado no hospital. Dez dias depois da internação, no dia 5 de fevereiro, José Mojica foi para uma sessão de hemodiálise e passou mal.

No prontuário médico, impresso por volta das 12h, consta que ele estava com desconforto respiratório, evoluiu com taquicardia, tendência a hipotensão (pressão baixa), taquipneia, respiração acelerada, e ainda queda de saturação, a oxigenação no sangue. Por isso, Mojica foi transferido do quarto para observação na semi-uti.

Durante toda a internação, Liz Marins diz que a equipe médica reforçava que o estado de saúde dele era grave e oferecia cuidados paliativos, mas a família não aceitou e pediu que os médicos interviessem em todas as situações.

“A médica chegou para nos conscientizar que a situação dele, deste dia 5 [de fevereiro], à tarde, era grave, que meu pai era dialítico, cardiopata, já com uma certa idade, estava com 83 anos e que o estado de saúde dele era bem delicado. Nós falamos, nós sabemos disso, enfim faz tempo que há alguns anos a situação de saúde dele está frágil, ele já foi inclusive internado várias vezes nesse mesmo hospital e felizmente saiu de todas as internações. Eu falava, não só eu mas todos os familiares é que o que tinha que ser feito era tudo o que fosse possível pela vida dele mesmo”, contou.

Depois, o médico Daniel Dorta Santiago de Carvalho Duarte, segundo a filha de Mojica, autorizou, às 20h30 a saída do cineasta da semi-uti para o quarto, contra a vontade da família e justificando que o paciente estava estável.

“O médico falou, ‘fique tranquila que ele está estável’. Estável como? em níveis que só poderiam ficar em semi-uti ou uti?”, questionou a filha.

“Eu pedi muito, entenda-se muito muito insistentemente para esse médico do 5º andar não passar o meu pai para o apartamento porque ele não estava em estado de saúde para apartamento, ele tinha que ser monitorado, tinha que estar com oxigênio adequado, e ele só tinha isso na semi-uti”, completou.

Segundo ela, era muito difícil monitorar a saturação e a pressão, já que a enfermagem só passava de seis em seis horas no quarto.

“Eu fui categórica quando eu estava falando com esse médico do 5º andar, que não estávamos seguras, que meu pai poderia falecer de uma hora pra outra e que não era pra passar pro apartamento que só na UTI ele ficaria com os cuidados que ele precisaria até melhorar, para depois passar pro quarto. O médico não me escutou. Na verdade, arbitrariamente, enquanto eu falava, já tinham pessoas retirando as coisas e aí passaram meu pai para o 16º andar, onde ficava o apartamento.

“Eu sabia que aquilo não podia ficar daquela forma, que meu pai não ia falecer desse jeito, não comigo vendo isso”, completou.

O relatório da enfermagem registrou o rápido agravamento do quadro de oxigenação de José Mojica. Às 20h30, ainda na semi-uti, a saturação estava em 93%. Em uma hora e meia em que ele ficou no quarto, a saturação caiu para 87%, e depois, para 77%.

Análise do atendimento

A GloboNews procurou o infectologista Jamal Suleiman para esclarecer se um paciente nessa situação poderia sair da semi-uti.

“Ele estava instável lá. O que é dado como estabilidade é um equilíbrio instável, que não era fixo, não era permanente, quando ele sai, ele rompe esse equilíbrio e piora, obviamente. Não precisava ter essa alta tão precoce", disse.

De acordo com o médico, o ambiente do quarto é completamente diferente da semi-uti.

“Seria razoável, por exemplo, se fosse cuidado de fim de vida porque daí não vai fazer diferença, porque a qualquer tempo você vai ter o desfecho final, mas não era isso que estava previsto e não isso que se combinou”, disse.

Depois, o médico Marco Antônio Mieza solicitou a transferência de Mojica, mas reforçou, em seu pedido, que era por insistência de familiares.

“Conversei com familiares explicando a gravidade do quadro clínico e provável evolução para óbito. Sugiro cuidados paliativos. Os familiares não aceitam e estão plenamente convencidos que o paciente vai se recuperar. Pedem insistentemente que o paciente vá para a UTI e que seja feito todo o possível para mantê-lo vivo. Solicito transferência para UTI”, diz o pedido.

Segundo a filha, a descrição do prontuário era muito diferente da feita quando Mojica foi transferido da semi-intensiva para o apartamento.

Com acesso à monitoração contínua, respirador e equipe médica 24 horas, José Mojica viveu por mais 14 dias, acompanhado da família.

A filha reforça que o momento de abordar os cuidados paliativos foi errado. Segundo o médico Jamal, a abordagem foi errada.

“Absolutamente (não). Esse não foi o combinado e não é o instante de sugerir cuidados paliativos, esse é o instante de você fazer uma intervenção, porque é um doente grave. Cuidado paliativo não é pra você deixar o indivíduo morrer. Isso nunca foi cuidado paliativo, isso não é paliar ninguém. Isso é abandonar a sua própria sorte”, disse.

Liz diz que quis contar o que aconteceu com o pai para evitar que ocorra com mais alguém.

“Eu não desejo que aconteça o que aconteceu com meu pai com ninguém, com mais ninguém. Eu realmente espero que isso dê voz a mais pessoas”, afirmou.

Liz procurou a ouvidoria da Prevent Senior, mas afirma que não obteve retorno.

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