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Estado concentra 90% das escolas ocupadas pelos jovens
Foto: R. Ramos / Deutsche Welle |
A morte gerou comoção em alunos, professores, familiares e
representantes das várias esferas do governo estadual. De acordo com a
Secretaria da Segurança Pública, o jovem foi esfaqueado por um colega
após ambos terem usado drogas sintéticas e se desentendido. Eles seriam
alunos do Colégio Santa Felicidade, um dos 847 ocupados no estado,
conforme a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes). Depois
do episódio, os demais estudantes deixaram as dependências da escola.
O governador Beto Richa emitiu nota responsabilizando os manifestantes.
"Peço que os estudantes encerrem esse movimento. A ocupação de escolas
no Paraná ultrapassou os limites do bom senso e não encontra amparo na
razão, pois o diálogo sobre a reforma do ensino médio está aberto."
A União Nacional dos Estudantes (UNE), a Ubes e a Associação Nacional
dos Pós-graduandos (ANPG) divulgaram um posicionamento conjunto,
destacando que as ocupações são pacíficas e abertas ao diálogo. "Sobre a
fatalidade de Curitiba em especial, acompanhamos as investigações e
vamos exigir das autoridades competentes toda a atenção e cuidado para
que o esclarecimento desse caso seja feito com urgência. As entidades
lamentam, ainda, a tentativa de utilizar tal acontecimento trágico como
forma de criminalização dos movimentos sociais."
Ocupação de escolas
Esta não é a primeira vez que secundaristas ocupam escolas como forma
de protesto. Em 2015, alunos de São Paulo se mobilizaram contra o
projeto de reorganização escolar do governo Geraldo Alckmin, que previa o
fechamento de 93 unidades e transferência de mais de 300 mil estudantes
para outras instituições. A ação, que na época atingiu cerca de 200
colégios, derrubou o secretário da Educação e levou Alckmin a revogar o
decreto. O movimento também acabou se estendendo para outros estados,
como o Rio de Janeiro, onde quase 70 escolas foram ocupadas entre março e
junho.
Segundo balanço da Ubes, das 1.072 instituições de ensino ocupadas no
Brasil, 995 são escolas e institutos federais, 73 são universidades e
três são núcleos regionais de educação. Há ações em pelo menos 21
estados e no Distrito Federal. Além da reforma no ensino médio, os
alunos se voltam contra a proposta de emenda constitucional (PEC) 241,
que congela investimentos públicos pelos próximos 20 anos, podendo
afetar as áreas de saúde e educação.
Atos de repúdio às medidas têm acontecido em várias cidades
brasileiras. Nesta segunda-feira houve passeatas em Vitória, João
Pessoa, Rio de Janeiro, Brasília, Cuiabá e Porto Velho. Já em São Paulo,
um protesto está previsto para esta terça-feira.
"Desocupa" ganha força
Capitaneado principalmente pelo Movimento Brasil Livre (MBL), que se
notabilizou por encabeçar as manifestações a favor do impeachment da
ex-presidente Dilma Rousseff, o esforço contrário às ocupações também
ganhou força nas últimas semanas. No Paraná, integrantes do MBL,
acompanhados de alguns pais e professores, chegaram a se reunir com o
governador para pedir apoio.
Segundo relatos de participantes das ocupações, o grupo contrário tenta
"retomar" escolas na periferia de Curitiba. Em uma delas, a Guido
Arzua, no bairro Sítio Cercado, os integrantes do "Desocupa" conseguiram
entrar no colégio nesta segunda-feira, com auxílio de docentes
contrários às reivindicações dos estudantes.
Enem e eleições
O Ministério da Educação (MEC) anunciou que pode adiar o Enem em 181
escolas, sendo 145 no Paraná, caso o movimento continue até 31 de
outubro. De acordo com o MEC, 95 mil dos 8,6 milhões de inscritos seriam
prejudicados. As provas estão marcadas para os dias 5 e 6 de novembro.
A "primavera secundarista" acontece em meio às eleições municipais no
Brasil, que sempre utilizam a estrutura das escolas. Em virtude do
movimento, a Justiça Eleitoral alterou 205 locais de votação no Paraná.
As mudanças atingem 700 mil eleitores das cidades de Curitiba, Ponta
Grossa e Maringá, onde haverá segundo turno em 30 de outubro. A
adequação deve provocar um custo adicional de R$ 3 milhões para os
pleitos, que tinham previsão de gastar R$ 22,2 milhões.
Para a presidente da Ubes, Camila Lanes, o movimento é uma forma de
responder às iniciativas do governo federal. "Ele [Temer] quer colocar
uma MP para resolver todos os problemas da educação pública do país, o
que não é possível. Estamos apoiando e nos solidarizando politicamente,
com estrutura, para que essa medida seja retirada de pauta." A entidade
garante que as ações são pacíficas.
Os estudantes se organizam, votam em
assembleias e se dividem em grupos de trabalho para fazer a limpeza
dentro das instituições.
Assim como há um ano, quando protestaram contra a reorganização
escolar, os jovens reclamam da falta de diálogo por parte do governo. O
MEC, por outro lado, argumenta que as propostas são fruto de um amplo
debate acumulado nas últimas décadas. "Entre as principais mudanças está
a possibilidade de o aluno escolher a área em que vai querer atuar
profissionalmente, como acontece nos principais países do mundo." Ainda
conforme a pasta, "trata-se de uma mudança fundamental, que deixará o
currículo flexível e articulado com o ensino técnico-profissionalizante e
a qualificação".
Deutsche Welle



