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28.10.26

USP encontra fentanil na saliva de usuários de maconha sintética

Estudo da USP detectou fentanil na saliva de 32% dos usuários de drogas K avaliados em São Paulo e alerta para o risco de overdose.

Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) identificou a presença de fentanil na saliva de usuários de canabinoides sintéticos, conhecidos como drogas K ou K9. A pesquisa analisou 65 pessoas que consumiam essas substâncias e encontrou resultado positivo para o opioide em 21 participantes, o equivalente a 32% da amostra.

O resultado chama a atenção porque nenhum dos participantes que relataram o uso de drogas K declarou ter consumido opioides. A descoberta sugere que a exposição ao fentanil pode estar acontecendo sem o conhecimento dos usuários, aumentando o risco de intoxicação grave e morte por overdose.

O fentanil é um opioide sintético muito potente, utilizado na medicina em situações específicas e sob controle rigoroso. Quando consumido de maneira não médica, especialmente sem conhecimento da dose ou da composição da substância, pode provocar depressão respiratória e levar à morte.

Pesquisa da USP identifica exposição involuntária ao fentanil

As amostras de saliva foram coletadas em três serviços de saúde da cidade de São Paulo, sendo um localizado na zona sul e dois na zona leste. Entre os 65 participantes avaliados, 21 apresentaram resultado positivo para fentanil.

Segundo os pesquisadores, os dados indicam uma possível exposição involuntária ao opioide, já que os participantes não relataram o consumo dessa classe de substâncias. A presença de fentanil em drogas que, em tese, não deveriam conter o composto representa um alerta para os serviços de saúde e as autoridades responsáveis pelo monitoramento de substâncias ilícitas.

O perfil dos participantes também evidenciou situações de vulnerabilidade social. A maioria das pessoas com resultado positivo era formada por homens em situação de rua e com baixa escolaridade. A mediana de idade dos participantes era de 23 anos, indicando a presença expressiva de jovens entre os consumidores.

Outro dado chamou a atenção da equipe: todos os usuários que testaram positivo afirmaram não ter consumido maconha, cocaína ou álcool nos quatro dias anteriores à avaliação. Para os pesquisadores, essa informação pode indicar que a exposição ao fentanil esteja relacionada a redes específicas de distribuição de canabinoides sintéticos.

Pesquisadora alerta para risco de uma epidemia de overdoses

Ligia Goes Endo, autora da análise, afirma que a circulação de fentanil em drogas comercializadas nas ruas pode ampliar os riscos associados ao consumo de substâncias ilícitas e exige atenção das autoridades.

A pesquisadora destaca que o uso hospitalar do opioide ocorre com controle de dosagem e monitoramento, diferentemente do consumo fora do ambiente médico.

“Fentanila é um opioide muito potente, com alta restrição, usado no contexto hospitalar. No centro cirúrgico ela causa uma depressão respiratória programada, com dosagem controlada, para um fim específico. Imagine um usuário usando isso de forma descontrolada na rua, sem noção de dosagem. Ele corre risco elevado de morte”, afirma.

De acordo com o estudo, a identificação do opioide diretamente na saliva de usuários representa um avanço em relação a análises anteriores, nas quais testes realizados em drogas apreendidas já haviam apontado a presença de fentanil em amostras de maconha sintética.

A diferença é que a nova investigação encontrou evidências de exposição entre pessoas que consomem essas substâncias, e não apenas em materiais recolhidos pelas autoridades.

Drogas K podem custar menos que outras substâncias

A facilidade de acesso às drogas K também preocupa os pesquisadores. Em algumas situações, a substância pode ser mais barata que o crack, o que contribui para sua circulação entre pessoas em situação de vulnerabilidade.

Durante a pesquisa, participantes relataram pagar entre R$ 2 e R$ 5 pela droga, dependendo da quantidade adquirida. Alguns informaram que conseguiam uma porção suficiente para preparar dois cigarros por cerca de R$ 1.

Os pesquisadores também ouviram relatos de usuários que passaram a consumir K9 como principal droga. Entre as razões mencionadas estavam a facilidade de acesso e a tentativa de lidar com sintomas de abstinência relacionados ao uso de opioides. Outros disseram recorrer ao crack apenas quando não conseguiam encontrar a droga sintética.

Ligia Endo ressalta que a comparação entre as drogas K e a maconha está relacionada ao receptor cerebral atingido, mas não significa que as substâncias tenham os mesmos efeitos ou composição.

“Essas drogas K tem o efeito similar ao da maconha, mas importante destacar que elas não são canabinoides. A comparação se dá exclusivamente porque atingem o mesmo receptor, mas o efeito é extremamente potencializado. É uma redução brusca da atividade cerebral”, explica.

Quais são os riscos do fentanil?

O consumo de fentanil sem indicação médica pode provocar intoxicação grave, dependência e overdose. Um dos principais perigos é a depressão do sistema nervoso central, que pode comprometer a respiração, causar perda de consciência e evoluir para insuficiência respiratória.

O risco aumenta quando a substância é misturada a álcool, benzodiazepínicos ou outros opioides. Também é elevado quando a pessoa desconhece a presença do composto na droga consumida ou não sabe sua concentração.

O uso repetido pode levar à dependência física. Nesses casos, a interrupção do consumo pode provocar sintomas de abstinência, que exigem atenção adequada dos serviços de saúde.

A exposição involuntária é especialmente preocupante porque a pessoa pode não reconhecer os sinais de intoxicação relacionados ao opioide nem saber que está consumindo uma substância com potencial de provocar overdose.

Estudo pretende ampliar o mapeamento em São Paulo

A pesquisa da USP deverá avançar para outras regiões da capital paulista. Segundo Ligia Endo, a intenção é ampliar o mapeamento da circulação do fentanil e analisar usuários de diferentes áreas, incluindo o centro da cidade, onde há grande concentração de pessoas que usam drogas.

O objetivo é compreender melhor a presença do opioide entre consumidores de canabinoides sintéticos e contribuir para o monitoramento dos riscos à saúde pública.

O alerta ganha relevância diante da experiência dos Estados Unidos, que enfrentaram uma grave onda de overdoses associadas ao fentanil. Em 2023, o país chegou a registrar cerca de 300 mortes por dia relacionadas a overdoses, segundo os dados mencionados no material da pesquisa. Desde então, os números diminuíram, embora ainda não exista consenso sobre todos os fatores que contribuíram para essa redução.

Por: Informativo em Foco

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