Terapia hormonal pode aliviar sintomas da menopausa, mas ainda gera medo
Ondas de calor, suores noturnos, insônia e alterações de humor estão entre os sintomas que podem afetar a qualidade de vida durante a menopausa. Embora a terapia hormonal da menopausa (THM) seja uma opção de tratamento para mulheres que apresentam indicação médica, o receio de desenvolver câncer ainda leva muitas pacientes a hesitar antes de iniciar o tratamento.
A ginecologista Lúcia Costa Paiva relata que algumas mulheres chegam ao consultório preocupadas com os riscos da terapia, mas mudam de percepção após receberem orientações e experimentarem os efeitos do tratamento.
Ao falar sobre o alívio das ondas de calor, a médica destaca a eficácia dos hormônios para esse sintoma em pacientes adequadas à terapia. Segundo ela, algumas mulheres relatam melhora significativa após começar a usar os medicamentos.
O tema tem relevância no Brasil, onde existem aproximadamente 33 milhões de mulheres entre 40 e 65 anos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) baseados no Censo de 2022. Nessa faixa etária, muitas passam pelo climatério, período de transição para a menopausa, e pela pós-menopausa, fases que podem vir acompanhadas de diferentes sintomas.
Um estudo brasileiro publicado em 2022, com 1.500 participantes, identificou que, entre as mulheres que procuraram atendimento médico por sintomas da menopausa, apenas uma parcela recebeu indicação de terapia hormonal.
A THM consiste na reposição de hormônios, principalmente estrogênio, isolado ou combinado com progesterona. A indicação depende dos sintomas, do histórico de saúde e dos riscos individuais de cada paciente.
Por que a terapia hormonal ainda provoca receio?
Parte do temor relacionado à terapia hormonal está ligada a um estudo de grande repercussão publicado em 2002, conhecido como Women's Health Initiative (WHI). A pesquisa, que envolveu 16.608 mulheres na pós-menopausa, investigou benefícios e riscos de tratamentos hormonais e contribuiu para uma redução expressiva na utilização desses medicamentos em diversos países.
O endocrinologista Alexandre Hohl, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), considera que os resultados tiveram grande impacto na prática médica e na percepção das pacientes.
Pesquisas posteriores ampliaram o conhecimento sobre o tema e demonstraram que os riscos variam conforme fatores como idade, tipo de hormônio utilizado, dose, duração do tratamento e condições de saúde da mulher.
Por isso, a relação entre terapia hormonal e câncer não deve ser interpretada como uma regra única para todas as pacientes. A avaliação precisa considerar os benefícios esperados e as contraindicações existentes em cada caso.
Especialistas também alertam para uma diferença importante: o uso de hormônios para tratar sintomas da menopausa, quando existe indicação, não deve ser confundido com terapias hormonais utilizadas indiscriminadamente para fins estéticos ou para melhorar a disposição sem uma justificativa clínica.
Quais são os riscos da terapia hormonal?
O risco de câncer de mama é uma das principais preocupações relacionadas à THM. Segundo os especialistas citados na reportagem original, determinados esquemas hormonais podem elevar esse risco, e a possibilidade depende do tipo de medicamento, da dose e do tempo de uso.
A ginecologista Lúcia Costa Paiva explica que o aumento observado pode ser pequeno em determinados contextos, mas precisa ser considerado durante a decisão médica. Ela cita uma estimativa de um caso adicional de câncer de mama para cada mil mulheres que utilizam terapia hormonal durante um ano.
Essa estimativa não deve ser aplicada indistintamente a todas as mulheres ou a todos os tratamentos. O risco individual depende das características da paciente e do esquema prescrito.
O histórico de câncer de mama é especialmente importante. De acordo com os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, mulheres que têm ou tiveram a doença não devem utilizar a terapia hormonal sistêmica habitual para tratar os sintomas da menopausa, salvo situações excepcionais avaliadas por especialistas em contextos clínicos específicos.
A avaliação também precisa considerar o risco cardiovascular e outras condições de saúde. Entre as situações que podem contraindicar o tratamento estão eventos cardiovasculares recentes, histórico de trombose e doença hepática ativa, conforme a condição clínica e a via de administração do hormônio.
O estrogênio utilizado isoladamente também pode estimular o crescimento do revestimento interno do útero em mulheres que ainda possuem o órgão. Por isso, nesses casos, costuma ser associado à progesterona ou a um progestagênio adequado, que ajuda a proteger o endométrio.
Mulheres com histórico familiar de câncer de mama podem fazer THM?
Ter mãe ou irmã que teve câncer de mama não significa, automaticamente, que a terapia hormonal esteja proibida. Entretanto, o histórico familiar deve ser investigado e considerado na avaliação individual.
O endocrinologista Alexandre Hohl ressalta que é importante diferenciar situações distintas, como uma mulher cuja irmã desenvolveu câncer de mama por volta dos 50 anos e outra cuja mãe recebeu o diagnóstico em idade avançada.
Essas diferenças podem influenciar a avaliação de risco, embora não determinem sozinhas a decisão. O médico também pode considerar outros fatores, como antecedentes pessoais, idade, sintomas e características do tratamento proposto.
A decisão deve ser tomada em conjunto com o profissional de saúde, após a análise dos benefícios esperados e dos riscos envolvidos.
Quando a terapia hormonal é indicada?
A THM pode ser indicada principalmente para aliviar sintomas que afetam a qualidade de vida durante o climatério e a pós-menopausa, especialmente ondas de calor e suores noturnos.
O tratamento também pode ser recomendado para mulheres que entram na menopausa prematuramente, antes dos 40 anos, inclusive em situações de retirada dos ovários ou após determinados tratamentos contra o câncer. Nesses casos, a indicação depende das condições clínicas e das possíveis contraindicações.
Embora algumas pacientes relatem melhora do humor, do sono e da disposição, esses efeitos não significam que a terapia hormonal deva ser prescrita apenas para tratar cansaço, falta de energia ou diminuição da libido.
A endocrinologista Karen de Marca, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), destaca que a perda de libido precisa ser investigada de maneira ampla. Estresse, ansiedade, depressão, sobrecarga de trabalho, responsabilidades familiares e dificuldades no relacionamento podem contribuir para o problema.
Assim, a escolha do tratamento deve considerar as causas dos sintomas, e não apenas a possibilidade de utilizar hormônios.
Qual é a melhor idade para começar e quando parar?
O momento de iniciar a terapia hormonal é um dos aspectos avaliados pelo médico. A idade, o tempo transcorrido desde a menopausa e o risco cardiovascular ajudam a determinar se os benefícios esperados superam os possíveis danos.
A chamada janela de oportunidade é frequentemente discutida na avaliação da THM. Em geral, o início próximo à menopausa pode apresentar um perfil de benefício e risco mais favorável para determinadas mulheres saudáveis com sintomas. No entanto, a decisão não deve depender exclusivamente de um limite de idade ou de anos desde a última menstruação.
Mulheres que continuam apresentando sintomas muitos anos após a menopausa precisam de uma avaliação individualizada. O tempo transcorrido, isoladamente, não permite decidir pela indicação ou pela contraindicação sem considerar os demais fatores clínicos.
Também não existe uma regra universal segundo a qual todas as pacientes precisam interromper o tratamento após determinado número de anos. A continuidade deve ser reavaliada periodicamente, levando em conta a resposta clínica, os efeitos adversos, as mudanças no estado de saúde e as preferências da paciente.
Exames preventivos, incluindo a mamografia conforme as recomendações aplicáveis à idade e ao risco individual, fazem parte do acompanhamento. Qualquer alteração suspeita exige investigação médica e pode levar à revisão ou à interrupção da terapia.
Acesso ao tratamento ainda é um desafio no Brasil
Além do receio relacionado aos riscos, a disponibilidade dos medicamentos representa uma dificuldade para muitas mulheres brasileiras. A ginecologista Lúcia Costa Paiva destaca que, mesmo quando uma paciente recebe indicação médica, o custo pode impedir o início ou a continuidade do tratamento.
Segundo a especialista, a terapia hormonal para a menopausa não está amplamente disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), o que faz com que parte das pacientes precise adquirir os medicamentos por conta própria.
Um estudo brasileiro publicado em 2022 também identificou diferenças no tempo de utilização da terapia entre grupos socioeconômicos. Conforme os dados citados na reportagem original, mulheres das classes A utilizaram os medicamentos, em média, por 24 meses, enquanto entre as classes D e E a duração média foi de três meses.
A diferença chama a atenção para os obstáculos financeiros que podem afetar a continuidade do cuidado, especialmente porque os sintomas da menopausa podem persistir por vários anos.
Experiências mostram que a resposta ao tratamento varia
Os relatos de mulheres que utilizaram a terapia hormonal mostram que os resultados não são iguais para todas as pacientes.
Sônia Santos, atualmente com 66 anos, conta que começou a enfrentar ondas de calor intensas por volta dos 53 anos. Os episódios eram frequentes durante o dia e também interrompiam o sono. Apesar do medo de desenvolver câncer, ela decidiu conversar com uma médica e posteriormente começou a utilizar adesivos hormonais.
Segundo Sônia, o tratamento melhorou a qualidade de vida e o sono. Após cerca de dez anos de uso, ela passou por uma reavaliação médica e teve a dose reduzida, com a possibilidade de discutir novamente a continuidade do tratamento.
A experiência de Ucha Aratangy, de 58 anos, foi diferente. Ela entrou na menopausa aos 53 anos e tentou iniciar a terapia hormonal aos 54, devido às ondas de calor e às mudanças físicas que percebeu.
Após começar a utilizar um adesivo, Ucha relatou mal-estar e vômitos. Por orientação médica, interrompeu o uso e decidiu não tentar outro medicamento hormonal naquele momento.
Ela afirma ter encontrado outras formas de lidar com os sintomas e diz estar confortável com sua decisão de não retomar a terapia.
Os dois relatos ilustram a importância do acompanhamento individualizado: enquanto uma paciente pode apresentar melhora expressiva, outra pode ter efeitos adversos ou optar por alternativas após conversar com profissionais de saúde.
Terapia hormonal exige decisão individualizada
A terapia hormonal da menopausa pode oferecer benefícios importantes para mulheres com sintomas e indicação clínica, mas não é necessária nem adequada para todas.
A decisão deve levar em conta o histórico médico, os riscos de câncer e de doenças cardiovasculares, a intensidade dos sintomas, as opções de tratamento e as preferências da paciente. Acompanhamento periódico e exames preventivos também são fundamentais durante o uso.
O principal alerta dos especialistas é evitar tanto o medo generalizado da terapia quanto a ideia de que os hormônios são isentos de riscos. A escolha mais apropriada depende de uma avaliação médica individual, com informações claras sobre os benefícios, as limitações e as possíveis complicações.
Por: Informativo em Foco



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