AVC já matou mais de 50 mil pessoas no Brasil em 2026
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) provocou 50.424 mortes e 182.253 internações no Brasil nos primeiros sete meses de 2026, segundo dados do DATASUS. Os números correspondem a uma média de 238 óbitos e 860 internações por dia, o equivalente a uma morte a cada seis minutos.
O cenário preocupa também pelo aumento dos casos que exigem hospitalização. Entre 2020 e 2025, as internações por AVC cresceram 23,6%, passando de 236.930 para 292.930 registros.
Embora a doença seja mais frequente em pessoas mais velhas, o avanço entre adultos jovens também chama a atenção das autoridades de saúde. Dados do Ministério da Saúde apontam que, entre pessoas de 15 a 49 anos, as internações aumentaram 16,9% de 2020 a 2025, passando de 34.896 para 40.788 registros.
Os custos para o sistema público também são expressivos. Ainda nos primeiros sete meses de 2026, os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com internações e tratamento hospitalar relacionados ao AVC chegaram a R$ 216,1 milhões.
Os dados ganham destaque com a proximidade do Dia Mundial do AVC, celebrado em 29 de outubro. A campanha da World Stroke Organization, reforçada no Brasil pela Rede Brasil AVC, busca conscientizar a população sobre os sintomas da doença e a importância de procurar atendimento de emergência imediatamente.
Quais são os tipos de AVC?
O Acidente Vascular Cerebral pode ocorrer de duas formas principais: hemorrágica e isquêmica. A diferença está no mecanismo que compromete a circulação sanguínea no cérebro.
O AVC hemorrágico acontece quando um vaso sanguíneo se rompe, provocando sangramento dentro do tecido cerebral ou na superfície do órgão. Esse tipo representa aproximadamente 15% dos casos e apresenta maior risco de morte.
Já o AVC isquêmico, responsável por cerca de 85% dos episódios, ocorre quando uma artéria é obstruída, impedindo que o sangue e o oxigênio cheguem às células cerebrais. O bloqueio pode ser provocado por uma placa de gordura ou por um coágulo originado no coração.
Nos dois casos, o atendimento rápido é fundamental para reduzir o risco de morte e de sequelas. No AVC isquêmico, a demora no tratamento pode provocar a perda de milhões de neurônios.
Sintomas de AVC: saiba quando chamar o SAMU
Reconhecer os sinais de um AVC pode fazer a diferença entre a recuperação e a ocorrência de sequelas graves. Segundo a neurologista Sheila Martins, presidente da Rede Brasil AVC, cada minuto sem tratamento representa uma perda significativa de células cerebrais.
“A cada minuto em que o AVC isquêmico não é tratado, a pessoa perde 1,9 milhão de neurônios”, explica a especialista.
Entre os principais sintomas estão:
Fraqueza ou formigamento no rosto, braço ou perna, principalmente em apenas um lado do corpo;
Confusão mental e dificuldade para falar ou compreender o que outras pessoas dizem;
Alterações na visão de um ou dos dois olhos;
Perda de equilíbrio, tontura, dificuldade de coordenação ou alterações na maneira de andar;
Dor de cabeça súbita e intensa, sem causa aparente.
Para ajudar a população a reconhecer os sinais, a Rede Brasil AVC destaca a expressão “VÁ De SAMU”, que reúne manifestações que exigem atenção imediata.
A sigla pode ser entendida da seguinte forma:
VA — Visão alterada: observe se a pessoa apresenta mudanças repentinas na visão.
De — Desequilíbrio: fique atento a tontura, perda de coordenação ou dificuldade para caminhar.
S — Sorria: peça para a pessoa sorrir e observe se a boca fica torta.
A — Abrace: solicite que levante os dois braços e verifique se um deles apresenta fraqueza.
M — Mensagem ou música: peça para falar uma frase ou cantar algo e observe se a fala está alterada.
U — Urgente: diante de qualquer um desses sinais, ligue imediatamente para o SAMU, pelo número 192.
A orientação é não esperar que os sintomas desapareçam espontaneamente. A suspeita de AVC exige atendimento de emergência.
Internações por AVC entre jovens também preocupam
O crescimento dos casos entre pessoas mais jovens é outro ponto de atenção. Dados do Ministério da Saúde mostram que as internações por AVC na faixa de 14 a 50 anos tiveram uma trajetória de alta praticamente contínua nos primeiros anos da série apresentada.
Foram 36.841 internações em 2021, 39.724 em 2022, 41.646 em 2023 e 42.269 em 2024, o maior número registrado nesse período.
Para Sheila Martins, parte do problema está na percepção de risco. Muitos adultos jovens não imaginam que podem sofrer um AVC e, por isso, podem demorar a identificar os sintomas ou buscar assistência médica.
“O crescimento das internações por AVC em adultos jovens é um alerta importante. Estamos falando de uma faixa etária que, muitas vezes, não se considera sob risco e, por isso, pode demorar a reconhecer os sintomas e procurar atendimento”, afirma a neurologista.
Entre os fatores associados ao risco nessa faixa etária estão doenças cardíacas não diagnosticadas, hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado e histórico familiar. O uso de anticoncepcionais associado ao tabagismo também é apontado entre os fatores que merecem atenção.
Hábitos como alimentação inadequada, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e uso de drogas ilícitas, além de sono inadequado, também podem contribuir para elevar o risco cardiovascular.
Diagnóstico tardio pode prejudicar a recuperação
O reconhecimento do AVC em adultos jovens enfrenta desafios específicos. Como a doença costuma ser associada à população mais velha, os sintomas podem ser confundidos com outras condições, incluindo enxaqueca e intoxicação por substâncias.
“A baixa suspeita de AVC em pessoas jovens pode atrasar o reconhecimento da doença e, consequentemente, o início do tratamento”, explica Sheila Martins.
As consequências podem atingir diferentes áreas da vida. Além de possíveis limitações físicas e cognitivas, a doença pode comprometer a capacidade de trabalhar, estudar e cuidar dos filhos.
“Uma pessoa de 30 anos que sofre um AVC pode ficar com sequelas que a impedem de trabalhar, estudar ou cuidar dos filhos. Isso impacta não apenas o indivíduo, mas toda a estrutura familiar e econômica ao seu redor”, destaca a especialista.
Como prevenir o AVC?
Segundo a Rede Brasil AVC, entre 80% e 90% dos episódios estão associados a fatores de risco potencialmente modificáveis. Isso significa que o controle das condições de saúde e a adoção de hábitos saudáveis podem ajudar a reduzir a probabilidade de ocorrência da doença.
Entre as principais medidas preventivas estão:
Acompanhar e controlar a pressão arterial;
Manter o diabetes e o colesterol sob controle;
Identificar e tratar arritmias cardíacas, como a fibrilação atrial;
Não fumar;
Praticar atividade física regularmente;
Manter uma alimentação saudável;
Evitar a obesidade;
Realizar acompanhamento médico adequado.
“É fundamental conhecer e controlar a pressão arterial, diabetes e colesterol, identificar e tratar arritmias cardíacas (fibrilação atrial), não fumar, praticar atividade física, manter uma alimentação saudável, evitar obesidade e realizar acompanhamento médico adequado. Prevenção e reconhecimento rápido dos sintomas podem salvar vidas e evitar incapacidade”, enfatiza Sheila Martins.
A prevenção não elimina todos os riscos, mas ajuda a reduzir a exposição a fatores associados à doença. O acompanhamento profissional é importante para identificar condições que podem passar despercebidas, especialmente em pessoas que não apresentam sintomas.
SUS amplia medidas para melhorar o tratamento do AVC
Além dos números de mortes e internações, o Brasil busca fortalecer a assistência aos pacientes com AVC. Em setembro, o tratamento na rede pública ganhou um reforço com a sanção de um projeto de lei que prevê a ampliação da oferta de medicamentos trombolíticos nos serviços de urgência e emergência.
Esses medicamentos podem ser utilizados no tratamento do infarto agudo do miocárdio e do AVC isquêmico. No caso do AVC, atuam na dissolução do coágulo que bloqueia o vaso sanguíneo, permitindo restabelecer a circulação cerebral.
Quando administrados rapidamente e em pacientes adequadamente selecionados, os trombolíticos podem aumentar as chances de recuperação e reduzir o risco de sequelas.
“Essa lei representa um avanço histórico para ampliar o acesso ao tratamento do AVC no Brasil. No AVC, cada minuto conta: levar o tratamento adequado para mais perto do paciente significa aumentar a chance de sobrevivência e, principalmente, reduzir as sequelas”, afirma Sheila Martins.
Também em setembro, o Ministério da Saúde instituiu o Comitê de Acompanhamento da Implementação das Linhas de Cuidado dos Agravos Cerebrovasculares e Cardiovasculares Tempo-Dependentes: AVC e IAM. O grupo tem entre seus objetivos estabelecer estratégias, critérios e parâmetros para qualificar a assistência às pessoas que sofreram um acidente vascular cerebral ou um infarto.
Rede Brasil AVC prepara diagnóstico da assistência no país
A Rede Brasil AVC atua há 18 anos em parceria com o Ministério da Saúde para fortalecer a linha de cuidado da doença na rede pública. O trabalho avança com o mapeamento da estrutura existente, a identificação de regiões com falta de assistência e o planejamento da expansão do atendimento.
Para o Dia Mundial e Nacional do AVC, a entidade prevê o lançamento de um documento com diagnóstico situacional, plano de expansão e monitoramento. A proposta é fornecer informações para orientar gestores e subsidiar a ampliação progressiva do acesso ao diagnóstico e ao tratamento.
“Não basta ter o tratamento. É preciso ter uma rede preparada para reconhecer o paciente, encaminhar, tratar e acompanhar. Nosso objetivo é fazer com que o local onde uma pessoa vive não determine sua chance de sobreviver a um AVC ou de viver sem sequelas”, destaca Sheila Martins.
Diante do número de mortes e do crescimento das internações, a mensagem central é reconhecer os sintomas e agir rapidamente. Em caso de suspeita de AVC, ligar para o SAMU, pelo número 192, é uma medida essencial para iniciar o atendimento de emergência.
Por: Informativo em Foco



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