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30.9.26

Estudo liga mais tempo de tela a pior desenvolvimento infantil

 Pesquisa com quase 3 milhões de crianças aponta associação entre maior tempo de tela e resultados inferiores em aprendizagem, fala e emoções.

Um novo estudo publicado na revista JAMA Pediatrics encontrou uma associação entre o tempo que crianças passam diante de telas e indicadores de desenvolvimento infantil. A pesquisa aponta resultados inferiores em áreas como aprendizagem, fala e regulação emocional entre crianças expostas a períodos maiores de uso de dispositivos.

Os pesquisadores revisaram décadas de estudos sobre o impacto do tempo de tela no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Ao todo, foram analisadas pesquisas que reuniram quase três milhões de crianças com até 18 anos, de 64 países.

Segundo Sheri Madigan, professora de psicologia da Universidade de Calgary, no Canadá, e autora sênior do estudo, pesquisas mais recentes apresentaram associações mais fortes entre o tempo de tela e o desenvolvimento infantil do que trabalhos realizados anteriormente.

Relação encontrada é considerada pequena

Madigan destacou que a maioria das associações identificadas no estudo foi relativamente pequena. Segundo ela, esse resultado é semelhante ao observado em outros fatores relacionados ao desenvolvimento infantil.

A pesquisadora, porém, ressaltou que uma associação pequena não significa que ela seja irrelevante, principalmente porque o uso de telas se tornou uma exposição praticamente universal entre crianças.

Uma das possíveis explicações para as mudanças observadas ao longo dos anos está na própria transformação da tecnologia.

Segundo Madigan, há duas décadas uma criança poderia passar determinado período assistindo à televisão. Atualmente, dispositivos digitais estão presentes em diferentes momentos da rotina, são interativos e respondem de maneira individualizada aos usuários.

Estudo não afirma que telas sejam prejudiciais em todos os casos

Apesar dos resultados, a pesquisadora afirmou que os pais não devem interpretar as conclusões como uma indicação de que as telas sejam necessariamente ruins para as crianças.

Segundo ela, as tecnologias digitais também podem ser utilizadas como ferramentas para apoiar a aprendizagem, estimular a criatividade e favorecer a conexão entre as pessoas.

A preocupação está relacionada ao equilíbrio e à forma como os dispositivos são utilizados. O excesso de telas pode ocupar períodos que poderiam ser destinados a atividades consideradas importantes para o desenvolvimento infantil, como sono, atividade física, interação humana, aprendizagem e brincadeiras.

Uma das sugestões apresentadas pela pesquisadora é que as famílias identifiquem momentos específicos em que o uso dos dispositivos esteja interferindo nessas atividades.

Entre as possibilidades está estabelecer refeições sem aparelhos eletrônicos ou criar um período diário em que todos os integrantes da família deixem os dispositivos de lado para interagir.

Governos também podem atuar sobre o uso de telas

Para Madigan, a responsabilidade pelo gerenciamento do tempo de tela infantil não deve ficar exclusivamente com os pais.

A pesquisadora defende que governos também tenham participação na discussão, com orientações para famílias, investimentos em educação e pesquisa e medidas destinadas a proteger crianças contra possíveis danos no ambiente digital.

Segundo ela, iniciativas desse tipo também ajudam a indicar para famílias, escolas e empresas de tecnologia que o uso de telas por crianças deve ser tratado como uma questão relevante para o bem-estar infantil.

Pesquisadores apontam limites do estudo

Os próprios pesquisadores ressaltam que os resultados são correlacionais e, portanto, não comprovam que o uso de telas seja a causa direta dos resultados observados no desenvolvimento.

Existe também a possibilidade de que crianças que enfrentam dificuldades de desenvolvimento recorram mais frequentemente às telas. Dessa forma, ainda é necessário investigar qual é a direção dessas associações.

Os próximos estudos da equipe devem analisar quais crianças são mais afetadas por diferentes experiências digitais e quais fatores podem explicar essas diferenças.

Especialistas avaliam resultados da pesquisa

Tatiana Íñiguez Berrozpe, professora sênior de sociologia da Universidade de Zaragoza, na Espanha, que não participou da pesquisa, classificou o trabalho como metodologicamente sólido e destacou o tamanho da amostra analisada.

Segundo ela, os resultados confirmam associações já identificadas em pesquisas anteriores entre o tempo de tela e indicadores de saúde mental e desempenho acadêmico, embora consideradas pequenas.

Esther van Sluijs, professora de epidemiologia comportamental da Universidade de Loughborough, no Reino Unido, também avaliou o estudo como de alta qualidade, mas apontou uma limitação.

Segundo a especialista, os dados disponíveis não permitiram analisar de forma consistente diferentes tipos de uso das telas, como redes sociais e jogos.

Por isso, ela considera necessário ter cautela ao interpretar os resultados diante dos hábitos atuais de utilização de dispositivos digitais por crianças e adolescentes.

Por: Informativo em Foco

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