Tecnologia do Blogger.
2.7.26

IA cria falsos médicos no YouTube e engana idosos com dicas de saúde; especialistas alertam para riscos

 O uso da inteligência artificial (IA) para criar falsos médicos no YouTube tem preocupado especialistas em saúde e direito. Canais que utilizam avatares gerados por IA para simular profissionais da medicina acumulam milhões de visualizações e influenciam, principalmente, idosos, que chegam a seguir orientações sem comprovação científica e, em alguns casos, abandonam tratamentos prescritos por médicos.

Uma investigação da BBC News Brasil revelou que esse tipo de conteúdo vem crescendo rapidamente e já soma cerca de 70 milhões de visualizações em canais voltados ao público da terceira idade.

Idosos acreditam estar recebendo orientação médica

A aposentada Celi Ferreira, de 82 anos, é uma das pessoas que assistiram a um desses vídeos. Enquanto navegava pelo YouTube, encontrou um suposto médico recomendando frutas para proteger a visão e evitar a cirurgia de catarata.

Sem perceber que o apresentador era um personagem criado por inteligência artificial, ela comentou na publicação dizendo que seguiria as orientações apresentadas.

Posteriormente, ao descobrir que o médico não existia, afirmou ter ficado surpresa.

"Achei que fosse um médico de verdade. Não percebi que era inteligência artificial", relatou.

Segundo Celi, embora nunca deixe de seguir as recomendações do seu médico, costuma colocar em prática dicas relacionadas à alimentação encontradas na plataforma.

Estratégia mira principalmente pessoas idosas

A investigação identificou que os canais seguem um modelo semelhante:

  • apresentam médicos fictícios usando jaleco branco;
  • utilizam voz calma e aparência confiável;
  • prometem revelar "segredos" escondidos pela medicina;
  • sugerem alimentos considerados milagrosos;
  • estimulam a compra de e-books e outros produtos.

Os vídeos são produzidos praticamente de forma automatizada com ferramentas de inteligência artificial, que geram roteiro, voz, imagens e até os personagens.

Especialistas apontam que o público idoso tornou-se alvo desse mercado por permanecer mais tempo assistindo vídeos, demonstrar maior confiança nos apresentadores e possuir maior potencial de consumo.

Conteúdo mistura informações verdadeiras e pseudociência

Os vídeos costumam combinar informações científicas reais com exageros e afirmações sem comprovação.

Entre os temas mais comuns estão:

  • cura da gastrite com chás;
  • prevenção do Alzheimer por alimentos específicos;
  • tratamento da diabetes apenas com dieta;
  • melhora da próstata com receitas caseiras;
  • fortalecimento da memória por meio de suplementos.

Segundo médicos ouvidos pela reportagem, esse tipo de conteúdo pode atrasar diagnósticos importantes e levar pacientes a abandonarem tratamentos eficazes.

Especialistas alertam para riscos

O gastroenterologista Jaime Zaladek Gil explica que alguns alimentos ou chás podem aliviar sintomas, mas não substituem tratamentos médicos.

"O risco maior é a pessoa abandonar uma terapia comprovada ou retardar um diagnóstico importante", afirmou.

Já o vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Jeancarlo Cavalcante, destacou que recomendações médicas precisam ser individualizadas.

Segundo ele, uma orientação adequada para uma pessoa pode representar risco para outra devido às doenças existentes ou à interação entre medicamentos.

Conteúdo pode configurar crimes

Juristas consultados pela BBC afirmam que esse tipo de prática pode configurar crimes como:

  • falsa identidade;
  • exercício ilegal da medicina;
  • publicidade enganosa.

Para o professor Thiago Bottino, da Fundação Getulio Vargas (FGV), o problema ocorre quando uma pessoa ou personagem criado por IA se apresenta como médico e passa a prescrever tratamentos.

Já Filipe Medon, também professor da FGV, afirma que utilizar um avatar para enganar usuários caracteriza uma situação jurídica diferente de simplesmente produzir conteúdo educativo sobre saúde.

YouTube remove parte dos canais

Após ser procurado pela BBC News Brasil, o Google informou que conteúdos, inclusive aqueles produzidos com inteligência artificial, devem seguir as políticas da plataforma.

A empresa afirmou que vídeos com desinformação médica capazes de provocar danos reais violam as diretrizes da comunidade.

Depois do contato da reportagem, alguns dos maiores canais investigados foram removidos da plataforma. Juntos, eles acumulavam cerca de 41 milhões de visualizações.

Produção ocorre em escala industrial

A organização sem fins lucrativos CTRL+Z identificou pelo menos 29 canais em português dedicados exclusivamente a esse tipo de conteúdo.

Segundo a entidade:

  • aproximadamente 10 vídeos são publicados por dia;
  • os canais registram cerca de 267 mil visualizações diariamente;
  • muitos utilizam roteiros praticamente idênticos, traduzidos de conteúdos produzidos originalmente em inglês e espanhol.

Além disso, existem cursos e tutoriais ensinando pessoas a criar esses canais utilizando ferramentas gratuitas de inteligência artificial, com promessas de faturamento elevado por meio da monetização do YouTube e da venda de produtos digitais.

Como identificar conteúdos suspeitos

Especialistas recomendam alguns cuidados antes de seguir orientações de saúde encontradas na internet:

  • verificar se o profissional realmente existe;
  • pesquisar o registro médico quando houver identificação;
  • desconfiar de promessas de curas rápidas ou milagrosas;
  • nunca interromper medicamentos sem orientação médica;
  • consultar profissionais de saúde antes de iniciar qualquer tratamento.

A orientação é utilizar conteúdos digitais apenas como fonte complementar de informação, mantendo sempre o acompanhamento com profissionais habilitados.

Por Redação: Informativo em Foco

  • Comentar com o Gmail
  • Comentar com o Facebook

0 commentarios:

Postar um comentário

Item Reviewed: IA cria falsos médicos no YouTube e engana idosos com dicas de saúde; especialistas alertam para riscos Rating: 5 Reviewed By: Informativo em Foco