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22.5.26

Por que Augusto Cury, escritor da autoajuda, quer ser presidente do Brasil

 Você pode não ter lido um livro de Augusto Cury. Mas a sensação de “já ouvi falar” é fácil de explicar. O autor paulista é reconhecido como um dos escritores brasileiros mais bem-sucedidos do século XXI. Estima-se que já tenha vendido mais de 30 milhões de exemplares. 

 
Não há números absolutamente confiáveis sobre vendas de livros no país. Ainda assim, é razoável afirmar que, em todos os tempos, só Paulo Coelho vendeu mais do que o médico e psiquiatra que se especializou em obras do gênero autoajuda. 
 
A projeção como escritor levou Cury a um desafio inédito. Ele quer transformar o prestígio acumulado no mercado editorial em potencial eleitoral. Na última semana, lançou-se pré-candidato à Presidência da República pelo Avante. 
 
O autor se apresenta como alternativa à disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Cury diz querer romper a lógica da radicalização e ocupar um espaço de “terceira via”, baseado em projetos e pacificação. 
 
“Eu sou uma terceira via, mas eu não sou uma terceira via de alguém que entra para concorrer só porque existe uma polarização, existe uma radicalização. Eu sou uma terceira via consciente”, definiu Augusto Cury, 68 anos, em entrevista recente à rádio Itatiaia. 

Mas quem é Augusto Cury? 

Antes de virar fenômeno editorial, Augusto Cury era um médico do interior paulista que construiu a própria trajetória longe do circuito literário. Nascido em Colina, em 2 de outubro de 1958, ele cresceu em uma família modesta, filho de um advogado e de uma dona de casa. 
 
Foi na formação médica que, segundo o próprio Cury, surgiram as inquietações que depois abasteceriam sua obra. O agora pré-candidato à presidência contou ter enfrentado uma crise emocional entre o segundo e o terceiro ano da faculdade, experiência que o empurrou para o estudo da mente humana e para a escrita. 
 
Formado em Medicina, Cury seguiu na psiquiatria e na psicoterapia, conciliando consultório, pesquisa sobre emoção e produção de manuscritos que só mais tarde virariam livros. Em Ribeirão Preto, consolidou também a vida familiar. Ele é casado com Suleima, médica dermatologista, e pai de três filhas.

A virada de Cury

A virada de Augusto Cury ocorreu quando ele transformou ideias que circulavam no consultório e em palestras em livros de linguagem simples, voltados ao grande público. Em vez de apostar em textos acadêmicos, escolheu temas como ansiedade, emoção, educação, autoestima e relações humanas, com apelo direto ao leitor comum. 
 
A entrada mais forte no mercado veio no início dos anos 2000. A editora Sextante publicou Você é insubstituível em 2002, e outros títulos ampliaram sua presença nas livrarias, como Nunca Desista de Seus Sonhos. Aos poucos, Cury deixou de ser apenas um psiquiatra autor de nicho e passou a disputar espaço entre os campeões de venda. 
 
O passo seguinte foi ampliar o alcance da própria marca. Cury não ficou restrito à autoajuda tradicional. Também avançou sobre romances e narrativas de inspiração, como O Vendedor de Sonhos, lançado em 2008, obra que o levou a um público ainda maior e reforçou sua presença fora do circuito estritamente terapêutico. 
 
Com o tempo, o sucesso dos livros puxou outras frentes, como palestras, cursos e produtos associados ao seu nome. Cury passou a ser tratado como o autor brasileiro que mais vendia livros no país, enquanto sua obra ganhava circulação internacional. Foi quando o médico deu lugar, de vez, ao fenômeno editorial. 

Por que ser presidente? 

A entrada de Cury na corrida ao Planalto em 2026 é sua primeira incursão formal na política partidária. Mas isso não significa ausência completa de posições públicas. Antes da pré-candidatura, Cury já havia se manifestado sobre o ambiente político, como na carta aberta de 2018 em que pediu paz e criticou a radicalização. 
 
Em 2025, Cury entrou em um tema sensível da disputa política ao defender a revisão das penas do 8 de Janeiro, com menções à dosimetria aplicada a Débora Rodrigues, conhecida como “Débora do Batom”. Ao somar esse discurso à crítica ao Supremo Tribunal Federal, passou a emitir sinais que o aproximam de pautas e eleitores da direita. 
 
O escritor afirma que entrou na disputa não por ambição de poder, mas por incômodo com o que vê no país. Na longa entrevista concedida à Itatiaia, disse que “não ama o poder” e “não precisa do poder”, mas decidiu se lançar porque enxerga um Brasil mergulhado na “era da desesperança”. 
 
Entre os motivos que mais o mobilizam, segundo ele, estão os quase 8 milhões de jovens que não estudam nem trabalham, o avanço do isolamento emocional e o que chamou de “intoxicação digital”. Cury também cita como razões centrais o feminicídio e o sofrimento psíquico que, em sua visão, está por toda a sociedade. 
 
Outro fator apontado pelo escritor é a preocupação com o futuro do país. Na conversa com a rádio mineira, ele diz que o Brasil perdeu o bônus demográfico e caminha para envelhecer antes de enriquecer. Cury trata isso como sinal da falta de líderes dispostos a enfrentar temas estruturais. 

Sou “cap social” 

O escritor criou para si um rótulo que o define politicamente: “cap social”. Seria, nas palavras dele, a junção de um “coração social” com uma “mente capitalista”. É uma tentativa de Cury de combinar liberdade econômica e empreendedorismo com proteção social e atenção aos mais vulneráveis. 
 
Pelo lado “social”, Cury diz que está falando de dor humana, direitos humanos, feminicídio, abuso sexual, educação técnica e meio ambiente. Pelo lado “capitalista”, associa o capitalismo a progresso, inovação, competição, liberdade econômica, liberdade de expressão e liberdade para fazer negócios. 
 
Mas há um terceiro elemento importante no conceito político do médico: o Estado. Cury não defende a ausência do Estado. Diz que ele deve ser “enxuto”, “eficiente” e “mediador”, justamente para corrigir injustiças, proteger quem “fica no caminho” e ampliar a igualdade de oportunidades. 
 
Também é importante notar o que Cury quer comunicar politicamente com esse termo. Na entrevista, rejeita ser “centro”, diz que não está “em cima do muro” e afirma ser uma “ponte” entre um “capitalismo inteligente, produtivo, proativo” e um Estado que abrace crianças, mulheres, idosos e pessoas vulneráveis. 

Por: GazetadoPovo


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