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23.2.26

Assédio sexual no Jiu-Jitsu, o tatame não pode ser um espaço de violência e silêncio


 Por Esdras Mendes, Bacharel em Direito, Professor Faixa Preta 3º grau de Jiu-Jitsu, campeão brasileiro e pai de Maitê.

O jiu-jitsu é uma das artes marciais mais respeitadas e difundidas no mundo. Originado no Brasil e transformado em fenômeno global, o esporte prega valores fundamentais como respeito, disciplina e autocontrole. Mas recentes acontecimentos têm exposto uma realidade intolerável, espaços que deveriam fortalecer e proteger seus praticantes estão, em muitos casos, sendo terreno fértil para abusos e assédios.

Nos Estados Unidos, uma figura histórica no jiu-jitsu e líder de academias em dezenas de países, foi acusado por uma ex-aluna de assédio sexual, com relatos que descrevem toques e condutas impróprias durante treinos. Ela afirmou que foi feita para se sentir desconfortável e pressionada por alguém que detinha autoridade e confiança dentro da academia e que, ainda mais grave, foi desencorajada a denunciar e confrontar o problema internamente. Sem debater se os acontecimentos são ou não verdadeiros, sem falar da necessidade de ponderar também a versão do suposto agressor ou de fazer qualquer juízo de valor sobre os envolvidos, decidi falar sobre o problema e não do caso especifico.

Kyra Gracie, pentacampeã mundial e uma das maiores referências femininas do esporte, em um vídeo recente, revelou que sofreu e presenciou casos de assédio ao longo de sua carreira, muitos silenciados por medo, vergonha ou pela cultura de minimizar essas situações no meio esportivo. Segundo Kyra, comportamentos impróprios na comunidade de jiu-jitsu não são casos isolados, eles são frequentemente tratados como “normais” ou negligenciados.

Ainda que nem todos os relatos sejam diretamente relacionados entre si, o conjunto dessas denúncias revela uma urgência, a necessidade de acompanhar e proteger cada aluno, sobretudo meninas, jovens e pessoas em posição vulnerável dentro de academias e eventos. O silêncio tradicional, tão presente em ambientes que exaltam uma “irmandade” ou “família” entre praticantes, muitas vezes atua como proteção para o agressor, enquanto a vítima carrega o peso do trauma.

Não se trata de atacar um esporte que milhões de pessoas amam e que traz benefícios físicos e sociais inequívocos. Mas sim de afirmar, com toda clareza, que o respeito à integridade física e psicológica dos praticantes é inegociável. O tatame, onde se aprende a enfrentar adversários com técnica e honra, não pode ser confundido com um lugar onde autoridades esportivas, instrutores, treinadores ou patrocinadores, exercem poder sobre outros com comportamentos predatórios.

A cultura de denúncias e transparência precisa ser fortalecida em todos os níveis, nas academias locais, nas federações nacionais e internacionais, e em cada competição. Canais de denúncia acessíveis, códigos de conduta claros e políticas rigorosas contra assédio devem ser padrão, não exceção. E as vítimas devem ser ouvidas, acreditadas e amparadas, sem medo de retaliação ou descrédito.

O jiu-jitsu tem potencial para ser muito mais do que um esporte de competição, é uma ferramenta de fortalecimento humano, inclusão e superação. Mas esse potencial só se concretiza plenamente se todos que amam essa arte se unirem para erradicar comportamentos que a desonram. O silêncio não protege o esporte, protege apenas os agressores.

Por Esdras Mendes, Bacharel em Direito, Professor Faixa Preta 3º grau de Jiu-Jitsu, campeão brasileiro e pai de Maitê.

Por: ClickPB

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