Número de desastres por chuvas intensas no Brasil cresceu 223% entre 2020 e 2023, revela estudo da Unifesp. Fenômeno afeta 83% dos municípios.
Desastres climáticos por chuvas crescem 223% no Brasil em apenas três anos
Entre 2020 e 2023, o Brasil registrou 7.539 desastres climáticos causados por chuvas intensas, um aumento de 222,8% em comparação com os 2.335 episódios ocorridos em toda a década de 1990. Os dados fazem parte do relatório Temporadas das Águas: O Desafio Crescente das Chuvas Extremas, da série Brasil em Transformação, coordenado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e produzido pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica.
Aumento da frequência e intensidade
O levantamento aponta que os eventos climáticos — como enxurradas, inundações, temporais e deslizamentos — têm ocorrido com mais frequência e intensidade, especialmente nas regiões Sudeste e Sul. O pesquisador Ronaldo Christofoletti, líder do estudo, afirma que os dados revelam uma tendência já prevista pela ciência: aumento da precipitação em determinadas regiões e redução drástica em outras.
“A gente começa a ver essas alterações no tempo e no espaço, e em alguns lugares vai chover muito, a ponto de causar desastres. E outras regiões, como o sertão, vão receber ainda menos chuva”, explica Christofoletti.
Projeções preocupantes até 2100
As conclusões do estudo vão ao encontro das projeções do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), que indicam aumento de até 30% no volume de chuvas nas regiões Sul e Sudeste e queda de até 40% no Norte e Nordeste até o fim do século.
O relatório utilizou dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID), abrangendo o período entre 1991 e 2023. Nesse intervalo, foram registrados 26.767 desastres climáticos causados por chuvas.
Perfil dos desastres registrados
64% dos desastres foram de natureza hidrológica:
Enxurradas: 55%
Inundações: 35%
31% foram de natureza meteorológica:
Temporais representaram 75% desse grupo.
5% foram classificados como geológicos, sendo 91% deles deslizamentos de solo.
Impacto urbano e social
Dos 5.570 municípios brasileiros, 4.645 (cerca de 83%) já foram atingidos por desastres climáticos relacionados a chuvas. Em 1990, esse índice era de apenas 27%.
As consequências vão além das perdas materiais. Entre os impactos diretos estão destruição de casas, danos à infraestrutura, deslocamento de pessoas e prejuízos à saúde. Já os efeitos indiretos incluem o aumento de transtornos emocionais e psicológicos.
Migração forçada e riscos futuros
A mudança no regime de chuvas também impacta a disponibilidade de água. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), bacias nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste podem perder mais de 40% da disponibilidade hídrica até 2040.
Essa escassez poderá gerar o aumento de fluxos migratórios de “refugiados climáticos”.
“É aquela família que vai perceber que precisa sair do seu território porque não consegue mais viver ali”, diz Christofoletti.
Soluções baseadas na natureza
A pesquisadora Juliana Baladelli Ribeiro defende a adoção de soluções baseadas na natureza, como parte das estratégias urbanas de adaptação climática. Jardins de chuva, parques alagáveis e lagoas artificiais são citados como exemplos que combinam infraestrutura verde e benefícios sociais e ambientais.
“Se, em vez de um piscinão de concreto, eu tenho um parque, como o Barigui, em Curitiba, ele alaga quando chove forte, mas não causa prejuízos estruturais. E ainda serve como espaço de lazer nos dias secos”, explica Juliana.
Conexões globais e papel das regiões polares
O estudo também destaca o impacto de fenômenos globais, como o aquecimento na Antártica, na alteração do regime de chuvas no Brasil. O aumento de temperatura e a variação na chegada das frentes frias estão entre os principais fatores da intensificação dos eventos climáticos extremos.
“O ciclo das chuvas se altera pelo aumento da temperatura do ar e pela influência das frentes frias — fundamentais no Sul, Sudeste e Centro-Oeste”, conclui Christofoletti.
Por Redação





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