Sancel
6.10.20

Careca por acidente, paraibano Matheus Cunha festeja melhor ano da vida e diz oferecer "flexibilidade" a Tite

 "Como se fosse o primeiro dia na escola", diz atacante sobre apresentação na Seleção

Aos 21 anos, o paraibano Matheus Cunha recebe sua primeira chance para estrear na Seleção Brasileira tendo Tite como técnico. O atacante do Hertha Berlin, da Alemanha, foi convocado para as duas primeiras rodadas das eliminatórias da Copa do Mundo Fifa Catar 2022 no lugar de Gabriel Jesus, do Manchester City, que está lesionado. 

Em entrevista ao Globo Esporte (via chamada de vídeo), Matheus Cunha mostrou otimismo e comemorou a grande temporada, e contou da ansiedade de conhecer Neymar, o racismo no futebol e um acidente que o deixou careca.

"Eu fico imaginando: estou no mundo daqui um tempo e tenho uma tatuagem ou algo do tipo representando 2020. Para todo mundo, foi uma catástrofe, um momento em que nunca passamos por nada parecido, e eu agradecendo por 2020 ser um dos melhores anos da minha vida. O melhor ano da minha vida, na verdade. É meio confuso, mas tenho meus motivos", contou.

O Brasil enfrenta a Bolívia, às 21h30 desta sexta-feira, na Neo Química Arena. Depois, encara o Peru em Lima, na terça, às 21h.

Confira a entrevista na íntegra abaixo:

GE: Você foi convocado para o lugar do Gabriel Jesus, cortado por conta de lesão. Ali, certamente foi surpreendido. Mas, e antes? Estava esperando ser chamado por Tite na primeira lista?

Matheus Cunha: – Eu não vou falar que estava tão esperançoso para a convocação. Sem dúvida, é um sonho, e a gente acompanha por sempre acompanhar mesmo, estava vendo a convocação. Tudo certo, tudo tranquilo (por não ser chamado), sei da qualidade dos jogadores que lá já estavam. Mas após um tempo... eu não sabia da lesão do Gabriel, não tinha nada o que esperar, estava aguardando o jogo do Hertha. Tinha almoçado e fui descansar no quarto, a gente jogaria à noite, e aí recebi a ligação do Juninho. "Juninho Paulista? Como ele está me ligando." Ele me explicou, e eu não conseguia conversar com ele normal. "É sério? É de verdade mesmo?" Fiquei sem conseguir expressar minhas emoções com palavras. Foi um desespero completo. Estava muito, muito feliz, logo depois falei para minha família, foi choro para todo lado. Feliz de ter eles por perto nesse momento. Foi um momento que eu posso dizer perfeito, uma surpresa inexplicável, é raro ter a família junto. Foi tudo gratificante.

Estávamos entrevistando o Bruno Guimarães na hora e ele contou que você estava eufórico.
– Logo falei com o Bruno (Guimarães): "Irmão, como está? Caramba! Muito ansioso, não sei o que." O Bruno é fenomenal, graças a Deus, vamos nos encontrar mais uma vez.

Como foi a comemoração depois?
– Cara, meu Deus do céu. Estava com minha mãe, minha irmã e meu pai, que vieram do Brasil. Fora a minha namorada, que a gente já mora junto. Quando aconteceu, foi inexplicável. Eu ligo para minha namorada e falo: "Assim, assim, assim, fui convocado". Eu não sabia demonstrar. Ela até brincou: "Só te vi assim desse jeito duas vezes: uma quando o Levi (filho de Matheus) nasceu e a outra agora." Sabe quando você quer chorar, a lágrima cai automaticamente, mas você não fala com voz de choro, as emoções todas misturadas? Foi um dos momentos de maiores felicidades na minha vida quando recebi aquele telefonema. Logo depois eu tive jogo e, infelizmente, perdemos. Eu estava um pouco chateado, mas quando chego em casa... Vou até mostrar para vocês, isso aqui é preguiça de tirar, olha como está. Fizeram uma mini-festa. Já logo tive que esquecer do jogo, porque é um sonho se tornando realidade.

Matheus Cunha mostra decoração de festa surpresa por convocação para Seleção — Foto: Reprodução

Ter jovens jogadores no grupo, alguns que você conhece, inclusive, ajuda a diminuir o frio da barriga?
– Isso aí dá um 0,001% de diminuída no frio na barriga, porque está demasiado. Acredito que o Neymar é o grande ídolo da minha geração. Lógico que a gente acompanhou o fim da carreira de outros craques já mais velhos. Mas que a gente acompanhou mesmo o Neymar é de quem a gente sempre fala. Para nós, que jogamos na Europa, sempre que chega algum brasileiro é comparado ao Neymar. É um grande ídolo. Eu chorei em duas Copas do Mundo que o Brasil perdeu, e o Tiago Silva estava jogando, agora eu vou jogar com o Tiago Silva. Então o frio na barriga diminuiu 0,001%, mas tá 99 ponto não sei quanto porque estou cheio de ansiedade.

Até por isso não dava nem para cogitar o Hertha não te liberar para a Seleção, né?
– Pronto, essa resposta você já tem sem problema nenhum. O treinador conversou comigo, tentou me explicar algumas coisas. Você é muito importante para a gente, nós vamos ter um jogo logo depois, mas acredito que se você for não vai poder jogar, porque teria que ficar cinco dias em quarentena”, então acredito que é compreensível. Hoje, se estou na Seleção, devo ao Hertha, que me ajudou. Fico feliz de ter essa importância toda no grupo, mas você respondeu por mim (risos), eles também sabem. Acredito que agora eles têm direito de não liberar na zona vermelha, mas o treinador e o diretor vieram me falar: “Matheus, é tão clara a sua felicidade que temos medo de falar não”. Então graças a Deus acredito que está bem resolvido, bem encaminhado. Se tiver algo é acima, mas não há do que se preocupar.

Já pensou como vai ser no treino: ter Neymar de um lado, Firmino? Vai orientar o Neymar para jogar te servindo?
– (Risos) Cara, não dá... primeiro, quero saber como vai ser minha reação de dar o “oi”. Depois, a gente pensa no próximo, como vai ser “oi, prazer”.

É muita ansiedade, muita dor de barriga, é como se fosse o primeiro dia na escola, multiplicado por 20 mil. Porque é o sonho se realizando, todas aquelas pessoas que já realizaram, hoje estão realizando seu sonho. É o momento que parecia ser tão longe, ao mesmo tempo está do lado, você tem que ser quem você é.

Você pensa "será que eu tieto ou ajo naturalmente"?
– Exatamente isso que eu penso. É tanto craque, pessoas que vejo com carinho, que acompanho. Estar junto deles é... esse sentimento de fã nunca pode falar, mas sem dúvida que é o meu trabalho ali. Todos são iguais, respeitando da melhor forma possível, mostrando porque você está lá, as qualidades. Eu sou contra essa coisa de “ah, tem que esconder a emoção”. Não, você está realizando o sonho, tem que desfrutar. Vou aproveitar da melhor forma possível.

Conta um pouco sobre a sua quarentena. As pessoas não gostaram muito de ficar em casa, mas você teve um outro bom motivo, né? Virou papai...
– Em casa, não. No hotel. Tinha acabado de sair do Pré-Olímpico, vim para o Hertha e logo deu o surto do coronavírus. Minha namorada estava com um barrigão, o bebê quase vindo. A gente estava num momento de muita preocupação pelo mundo, por tudo, mas tivemos, graças a Deus, motivos para sorrir. Conseguimos encontrar apartamento rápido, encontramos um hospital, tudo isso, e graças a Deus meu filho nasceu com muita saúde. No dia 23 de maio, um dia inesquecível, teve o Dérbi aqui, eu fiz o gol e fui correndo para o hospital. Então, tá tudo da melhor qualidade, com motivos para sorrir. Triste pelo que passou pelo mundo, mas somos fortes, estamos dando a volta por cima.

Você já se sente mais maduro por conta da paternidade? Isso pode influenciar também dentro de campo?
– Me sinto muito mais maduro, com uma responsabilidade diferente de cuidar de um outro ser humano. Isso reflete em campo, em atitudes, pensamentos, tomadas de decisões. Isso te engrandece, você fica uma pessoa melhor, espero ser um jogador melhor. Tenho mais motivos para entrar em campo e dar meu máximo, sem dúvida alguma. Tenho uma responsabilidade tremenda.

E esse cabelo raspado é o visual de pai?
– Ih, se eu conto essa história... vai dar problema. Eu fui inventar de mudar de cor, depois inventei de passar um creme. Rapaz, meu cabelo caiu! Mas to gostando, estou gostando, porque fiquei mais maduro, barba bem feita, cabelinho na régua, tá tudo certo.

Foi sem querer então?
– Estou falando para vocês aqui, mas vamos falar que foi por opção (risos). Estava lá no banho, do nada estava caindo tudo. Aí passei a máquina, fiz o simples, está tudo certo.

Matheus Cunha foi o artilheiro do torneio Pré-Olímpico — Lucas Figueiredo / CBF

Em tese, você foi convocado para a vaga do Gabriel Jesus, que vem jogando na seleção pelo lado direito. É confortável para você executar essa função, se precisar? Tem preferência de posição?
– Preferência para jogar, acho que isso já passou tem muito tempo. No Hertha, no fim da temporada passada, joguei do lado esquerdo, mudando para o direito. Comecei a temporada de 9, voltei um pouco mais recuado para criar jogadas. Então me sinto bem em todas as funções, sinto que posso ajudar, então o mais importante é estar bem para o que me pedem, poder fazer, se tenho características tento fazer o máximo. Então, essa minha flexibilidade espero que seja algo positivo e aí o Tite que sabe, onde ele quiser eu jogo, com maior prazer do mundo e maior vontade. Oportunidade que poucos têm e vou fazer o máximo para agarrar.

Li que você desejou sair do RB Leipizg para o Hertha Berlin. O seu ex-time chegou longe na Liga dos Campeões. Como foi essa decisão e ver seu ex-time chegando longe?
– Eu sempre soube da qualidade do Leipizig, era muito feliz de estar lá também, só que a partir do momento que vou para o Pré-Olímpico e já vinha tendo minutos que eu precisava, que eu conseguia aproveitar da melhor forma, isso estava me motivando a querer mais e mais. Então, por mais que visse o Leipizig num momento muito bom para o clube, não me arrependi (de sair) em momento algum. Fiquei muito feliz por eles, mas não tem como não estar feliz por mim também. Consegui mostrar tudo que eu queria, consegui ajudar o Hertha, colocando em posição muito melhor na tabela. Ajudando mais do que eu pensava. Isso me agregou muito, trazer um clube que estava em situação totalmente contrária, um brigando lá em cima, outro brigando para não cair, isso me agrega como jogador, como ser humano, você saber lidar com responsabilidades diferentes, “negativas”. Isso me tornou melhor jogador. Graças a essa decisão estou convocado hoje para a Seleção.

Recentemente, o GE publicou uma matéria mostrando que, dentre todos os atacantes convocados, você é quem tem o maior número de gols por minuto na temporada. Sabia dessa? Como vê isso?
– Eu vi. É gratificante, no meio de tantos craques ter números bons. Isso te traz motivação a mais, mostra que você é capaz, que aquilo pode agregar muito a lugares onde parece que já está tudo certo, consolidado, que você pode chegar e trazer coisas diferentes. Isso traz entusiasmo sem dúvida alguma. Quero aprender para que essa média possa aumentar. Quero aprender muito e ajudar muito. Momento de motivação e muita alegria.

O que você tem de diferente para agregar a esse grupo?
– O grupo é muito forte. A gente tem muita qualidade mesmo. Todos têm pontos fortes.

Acredito que eu, por exercer função de tanta flexibilidade no clube, de poder jogar em tantas posições, acho que isso pode ajudar muito, quando precisar. Acredito que dentro do que posso fazer, vou estar à disposição com gols e agregar pequenas ou grandes coisas para grandes craques e sair com muito aprendizado. Mais importante é sempre crescer e ver as coisas de forma positiva.

Já aprendeu a falar alemão?
– Eu sou uma pessoa muito curiosa, que gosta de aprender, estou sempre buscando conhecimento. Mas pensa numa língua difícil (risos). Eu ainda não a domino, mas consigo fazer as coisas, não passo dificuldade, consigo desenrolar bem. Tem dificuldade, mas vamos indo, quem sabe com o tempo a gente não aprende mais por completo.

Você tem companheiros de 10 nacionalidades diferentes no Hertha. Como é esse vestiário?
– É isso, e de cada lugar que você nem imagina. O pessoal é fenomenal, a forma como me receberam foi espetacular. Normalmente aqui falamos inglês, muitos falam em alemão, eu consigo ter uma vantagenzinha, porque de vez em quando desenrolo com Piatek, que jogou no Milan, em italiano, com o Santi, em espanhol, então estou fingindo falar um monte de língua, com todo mundo. Então, claro, tem o Santi que bebe mate, o Piatek vai na onda dele, eu falo “isso é ruim, deixa para argentino”. É uma brincadeira sadia, pessoal querido e que sabe receber, um lado multicultural que agrega muito. Trazendo coisas boas de cada cultura pode nos levar a grandes coisas.

O que eles têm de curiosidade do Brasil?
– Eles brincam muito sobre o nosso futebol. Todo momento, se erra alguma coisa, “não é brasileiro, não”. Futebol traz essa grande conquista do brasileiro, grande orgulho, de vez em quando falam de carnaval. Falo que o Nordeste é um lugar muito legal, eles falam “temos que ir para a praia do Nordeste agora”. Nem sabem o que é Nordeste, mas estão brincando com isso agora. Falam de coxinha, porque aqui em Berlim tem restaurante brasileiro agora. “Quero coxinha”, eles dizem, falo que é muita fritura, que eles não vão comer. Um dia desse tinha carne de canguru, falei para o australiano. Mas é esse tipo de brincadeira. Aí um fala de Amazonas, e eu digo: “Larga de ser burro, Amazonas é lá em cima, eu sou do outro lado” (risos). Então é isso, quer queira ou não, quando a gente para e conversa um pouco, fica sabendo das coisas em outros países, questões sociais, perguntam como está a situação do coronavírus, sobre política e tudo isso. Eu, metido a curioso, tento explicar um pouco o que eu sei e a gente vai aprendendo um pouco de cada cultura.

Essa troca cultural você acha que contribui com a sua formação, te afasta de qualquer preconceito?
– O preconceito é muito da ignorância das pessoas. As pessoas não têm conhecimento, não sabem o que um negro pode agregar para você, um homossexual pode ter de conhecimento para te passar, até também por países, alguém que queira desmerecer alguém que veio de um país mais pobre que o seu. Você fica uma pessoa mais completa, sem dúvida alguma. O mundo tem tantas coisas negativas, para mim uma das piores coisas é preconceito. Mas quando você lida com situações diferentes você pode deixar a ignorância que for de lado, porque aquilo te agrega, te dá ponto de vista que você não tinha, então você conhece pessoas de diversas partes do mundo, que são gente boa, gente legal e que pode te agregar no futuro e presente.

No começo do ano, numa entrevista ao GE, sua mãe contou que quis te preparar para adversidades que você teria que enfrentar na vida, uma delas o racismo. Hoje, vemos muitos atletas se manifestando contra o racismo. Como você vê isso, pensa também em participar, manifestar no que está ao seu alcance?
– Sem dúvida, acho muito positivo, não só atletas, mas todas pessoas que têm voz ativa na população. O Brasil, com o futebol, não é só um orgulho para o brasileiro, mas representa uma ascensão social que a pessoa pode ter através do futebol. Levamos muita responsabilidade vestindo essa camisa. O Brasil tem tanta cultura, tanta diversidade, acho que podemos ser ativistas de diversas causas, então acho que isso torna o esporte muito positivo. Eu tento ajudar no que está ao meu alcance, acredito que posso fazer mais, acho que todos podem fazer mais, para aqueles que mais precisam. Então eu sou a favor, sou partidário disso. Acrescenta ao esporte, dá brilhantismo, você vê seu ídolo e assim movimenta cada vez mais pessoas. Essa luta tem que ser incansável, até que um dia os que são contrários, os que trazem negatividade ao mundo se vejam numa inferioridade tremenda para que aos poucos possa acabar. Mesmo que dure muito tempo.

Por 

  • Comentar com o Gmail
  • Comentar com o Facebook

0 comentários:

Postar um comentário

Item Reviewed: Careca por acidente, paraibano Matheus Cunha festeja melhor ano da vida e diz oferecer "flexibilidade" a Tite Rating: 5 Reviewed By: Informativo em Foco