Ex-presidente lustra sua nova face ao lançar pré-candidatura a presidente, mas a estratégia do petista é mais do que batida
São dois Lulas. O primeiro ostenta um currículo que fez o
mundo acreditar na sua sofrida história de vida. É aquele que veio de
Guaranhuns (PE) num caminhão pau de arara, morou em favelas, comeu o pão
que o diabo amassou. O pai abandonou a mãe para viver com a cunhada e
assim deixou sete crianças morando ao relento. Cresceu e virou
sindicalista. Autodidata, aprendeu a língua dos operários. Fazendo
acordo com as montadoras de veículos, conseguiu benefícios para os
metalúrgicos. Dizia que não era de esquerda e que queria mesmo é que os
operários pudessem comprar seus próprios carros. Se transformou em herói
dos trabalhadores. Desafiou o regime militar. Um dia seria presidente
da República.
Disputou com Fernando Collor de Mello e quase venceu em 1989. Só
perdeu porque apareceu uma ex-mulher dizendo que ele propôs que ela
abortasse a filha Lurian. Mas aí apareceu em sua vida o advogado Roberto
Teixeira, que se transformou em seu compadre e protetor. E a partir daí
surgiu o novo Lula, aquele que hoje é réu em cinco ações criminais por
corrupção. O Lula que fazia qualquer negócio para ganhar eleição.
Primeiro, Teixeira lhe deu uma nova “roupagem”. Tirou-o da casinha
humilde que ele tinha perto da FEI, em São Bernardo do Campo, e levou-o
para morar, de graça, numa ampla casa que Teixeira tinha nas imediações
do Sindicato dos Metalúrgicos. Lula passou a andar em carro com
motorista. Virou um lorde. Lula trocou por uísque a cachaça que tinha
num barril no escritório do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo,
onde foi presidente durante mais de uma década. Passou a fumar charutos
cubanos que o recém amigo Fidel Castro lhe mandava.
Suas surradas camisetas foram trocadas por ternos finos. Mesmo assim,
perdeu as eleições de 1994 e 1998. Afinal, foi derrotado pelo
intelectual Fernando Henrique Cardoso, com o apoio do Plano Real e da
sociedade que via Lula como um operário pouco letrado e que falava
“menas”.
SEM PLANO B O presidente do PT, Rui Falcão, diz que o partido não tem opção além de Lula
Até que em 2002, surgiu o empresário José Alencar e seu caixa de
dinheiro dos empresários para a campanha. O PT não queria que Lula
colocasse Alencar de vice. Lula bateu o pé e disse que se Alencar não
estivesse na chapa, ele desistiria de ser candidato. O PT saiu derrotado
do jogo de braço. Durante o debate com os candidatos na TV Bandeirantes
em agosto de 2002, o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, disse a este
repórter que o PT não perderia a eleição de jeito nenhum. “Estamos
cheios de dinheiro. Vamos gastar o que for preciso para ganhar”. E Lula
ganhou a primeira eleição.
O currículo de bom mocinho de Lula, no entanto, começou a ser jogado
na lata do lixo. Para se sustentar no poder, Lula e José Dirceu
comandaram o mensalão. Para manter os partidos aliados no cabresto, o PT
de Lula tirou dinheiro de estatais e passou a comprar deputados. Com
isso, a cúpula do partido foi dizimada. Muitos foram condenados à
cadeia. Lula escapou. Sempre disse que não sabia de nada. Se reelegeu
presidente em 2006, apesar do mensalão.
Depois, com a economia ainda em alta, elegeu um poste para sua
sucessão, a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Sem aptidão
para governar, ela só deu certo no primeiro mandato porque Lula estava
por trás. Depois soubemos por que. Na verdade ele orquestrava, segundo o
Ministério Público Federal, o esquema de desvios bilionários da
Petrobras, tanto para manter o PT e partidos aliados, como para o seu
próprio enriquecimento.
MAIS DO MESMO
E logo foram surgindo denúncias de que aquele Lula de Guaranhuns havia
morrido. Estava em ação o Lula amigo de Roberto Teixeira, das benesses
de amigos, de presentes de empreiteiras, de milionárias propinas. Com o
desenrolar das investigações da Operação Lava Jato, a partir de 2014, o
nome de Lula foi surgindo como o mentor dos desvios na Petrobras. Hoje,
ele é réu em cinco ações por corrupção, das quais duas na Lava Jato. Em
uma delas, Lula é suspeito de ter um triplex no Guarujá pago pela
empreiteira OAS. Em outra, Lula é acusado de receber favores da
Odebrecht na compra de um terreno para o Instituto Lula e também na
compra de uma cobertura em São Bernardo, situada no mesmo andar onde
mora. O ex-presidente é réu ainda na Justiça de Brasília, por ter
obstruído a Lava Jato e favorecido a Odebrecht em negócios na África.
Lula é acusado também de favorecer amigos na confecção de medidas
provisórias que acabaram envolvendo também um de seus filhos.
É esse Lula – que pode ser condenado ainda este ano por corrupção –
que está lançando-se candidato a presidente da República. Sua
candidatura foi debatida em reunião do PT nesta sexta-feira 20. A ideia é
que Lula seja oficializado pré-candidato oficialmente no Congresso
Nacional do partido de 7 a 9 de abril próximos. Assim, segundo a tese
petista,dois objetivos seriam cumpridos: ele escaparia das malhas da
Justiça e serenaria as disputas internas, que pregam a refundação e uma
faxina ética, que afastaria do comando do partido próceres da corrente
Construindo um Novo Brasil. Se for condenado, uma já surrada narrativa
sairá do forno: Lula se dirá “vítima de perseguição política” em mais
uma “conspiração da mídia e das elites” para evitar que ele regresse ao
poder. É o óbvio ululante. Sem dúvida, uma característica marcante de
nova face deste Lula, que já se autodefiniu como uma metamorfose
ambulante, é a incapacidade de se reinventar.
LULA OUTRA VEZ?
• Candidatura de Lula a presidente da República foi referendada em reunião do PT nesta sexta, 20
• Lula deve ter pré-candidatura lançada de 7 a 9 de abril, durante Congresso Nacional do PT
• Será a sexta candidatura a presidente. Ganhou duas: em 2002 e 2006. Mas perdeu três seguidas: 1989, 1994 e 1998
• Depois que deixou o poder em 2010, passou a ser acusado de corrupção
• Já virou réu em cinco ações criminais e pode ser condenado ainda este ano
• Se for condenado em primeira instância e a sentença referendada no Tribunal Regional poderá ser preso
• Nesse caso, não poderá ser candidato a qualquer cargo eletivo
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