Ucrânia diz que chance de ataque nuclear da Rússia é muito alta

 Especialistas argumentam que Putin pode ser tentado a fazer um ataque de advertência caso a Ucrânia siga tentando retomar áreas ocupadas.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) — O governo da Ucrânia considera muito alta a probabilidade de a Rússia atacar seu país com armas nucleares. A avaliação, sombria e completada pelo usual pedido de mais ajuda militar do Ocidente contra a invasão de Vladimir Putin, foi feita pela Direção Principal de Inteligência do Ministério da Defesa.

"Os ataques provavelmente atingirão locais ao longo da linha de frente onde há grande número de pessoal e equipamentos, bem como centros de comando e infraestrutura crítica. Para detê-los, precisamos não só de sistemas antiaéreos, mas também de antimísseis", afirmou o porta-voz do órgão, Vadim Skibistki.

O tema do emprego de armas nucleares vem sendo naturalizado entre analistas e observadores do conflito por causa da retórica crescente de Moscou, que desde o começo do conflito tem apresentado suas credenciais de superpotência no setor para limitar o envolvimento ocidental.

Na semana passada, ao anunciar a mobilização de 300 mil reservistas e o processo de anexação de quatro regiões ucranianas, Putin evocou a doutrina nuclear russa, que prevê o uso da bomba em caso de ameaça existencial ao Estado — mesmo que convencional.

A lógica é simples: ele quis dizer que pode empregar esse tipo de armamento em caso de ataque a seu território. Como a partir desta sexta (30) ele considera os 15% que pretende anexar da Ucrânia parte da Rússia, o cenário está montado.

Especialistas argumentam que Putin pode ser tentado a fazer um ataque de advertência caso a Ucrânia siga tentando retomar áreas ocupadas. Para isso, poderia usar uma bomba tática, de baixa potência e com desenho para minimizar a dispersão de radioatividade após a explosão, talvez em um ponto isolado como a ilha da Cobra.

O pequeno pedaço de terra, no oeste do mar Negro, virou um símbolo da resistência ucraniana ao ser retomado da Rússia com o emprego de mísseis ocidentais que a Kiev não tinha antes da guerra e apoio de um drone americano. Uma ação mais objetiva seguiria a linha que Skibitski citou, mas a ideia de ataque a centros de comando implica atingir áreas civis.

O ex-presidente russo Dmitri Medvedev, aliado de Putin e seu número 2 no Conselho de Segurança do país, fez elaborações sobre a hipótese de usar a bomba e desafiou o Ocidente, dizendo que a Otan (aliança militar ocidental) não iria revidar diretamente porque não quer "morrer no apocalipse nuclear".

Essa é uma referência tenebrosa a uma escalada que muitos analistas temem que possa ocorrer caso Putin use uma bomba limitada. A Polônia já defendeu que a Otan entre em guerra convencional contra os russos, mas isso poderia facilmente descambar para um conflito nuclear com armas estratégicas, aquelas desenhadas para destruir cidades inteiras e, ao fim, trazer o apocalipse citado por Medvedev.

Os EUA não entregaram ainda os sistemas antiaéreos prometidos aos ucranianos em um dos vários pacotes que já somam mais de US$ 16 bilhões (R$ 86 bilhões) em ajuda militar a Kiev. Mas sistemas antimísseis não foram prometidos, não menos porque implicariam uma escalada: o sistema pode ser usado, com adaptações, como arma ofensiva também.

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