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Ataques de tubarões no mundo crescem 40% em 2021 após três anos em queda; Brasil é 3º com mais casos

 Segundo relatório divulgado pelo Museu da Flórida, foram registrados 73 episódios no ano passado, sendo nove deles fatais, frente a 52 eventos em 2020; especialistas apontam declíno acentuado na pandemia e tendência de redução a longo prazo.

RIO — Os ataques de tubarões ao redor do mundo voltaram a crescer em 2021, após três anos consecutivos em declínio. O aumento foi de aproximadamente 40% em comparação a 2020, quando foram registrados 52 acidentes, segundo o Arquivo Internacional de Ataques de Tubarão (ISAF, da sigla em inglês), recém-divulgado pelo Departamento de História Natural do Museu da Flórida. Ao lado de Nova Zelândia e África do Sul, o Brasil foi o terceiro país que mais reportou casos.

Os pesquisadores identificaram ao longo do ano passado 73 ataques de tubarão não provocados — quando o incidente ocorre no habitat natural do animal sem que o humano o instigue. O número se aproxima da média de 72 acidentes anuais aferida no último quinquênio (2016-2020). Mais da metade dos casos (47) foram contabilizados nos Estados Unidos, sendo 28 deles no estado da Flórida. A Austrália vem na sequência com 12 episódios.

Os estudiosos atribuem o aumento significativo de um ano para o outro à queda acentuada nos números durante a pandemia, quando restrições impostas pelos governo reduziram o acesso às praias. No entanto, afirmam que a quantidade é "extremamente baixa" e não representa uma mudança na tendência de queda a longo prazo.

— Os números de 2021 estão novamente alinhados com as médias de longo prazo, que atribuímos à retomada das atividades recreativas marinhas após os bloqueios associados à pandemia do ano anterior — disse ao GLOBO o gerente de programas do ISAF, Tyler Bowling.

Entre o total de ataques, nove deles foram fatais — incluindo um no Brasil, onde houve três acidentes envolvendo mordidas de tubarão em 2021. Dois desses aconteceram na praia de Piedade, no município pernambucano de Jaboatão dos Guararapes, a cerca de 20 km da capital Recife. O terceiro incidente foi registrado na praia da Cacimba do Padre, no arquipélago de Fernando de Noronha, também pertencente a Pernambuco. O estado é o que mais registrou ataques em toda a série histórica, desde 1931, com 61 casos, conforme levantamento do ISAF.

— Estamos em contato com biólogos brasileiros e esses incidentes não parecem representar uma tendência maior neste momento — afirmou Bowling.

Segundo o biólogo marinho Marcelo Szpilman, diretor-presidente do AquaRio, os ataques ocorrem principalmente por erro de identificação visual por parte dos tubarões. Ele explica que, com o aumento de pessoas na água, a interação com esses animais também é maior, o que leva a acidentes. No caso de Pernambuco, há particularidades que desencadeiam mais episódios do que no restante da costa brasileira, onde as chances de ataque são "irrisórias".

— Em Recife, o cabeça-chata está em uma zona de arrebentação de onda. Ele está ali procurando peixe para se alimentar. Como a água é turva, pode confundir com braço, perna. Mas é uma mordida investigatória. Ao perceber textura e sabor, ele solta. Se a pessoa consegue sair imediatamente da água, as chances de sobreviver são grandes. Geralmente, morre por sagramento e choque hipovolêmico (situação de emergência decorrente da perda de grande quantidade de líquidos e sangue), o que provoca afogamento secundário. No resto do litoral brasileiro, as chances são irrisórias.

Existem outras hipóteses menos frequentes, de acordo com o Szpilman. Quando uma fêmea entra em trabalho de parto e se desloca a uma região rasa, por exemplo, pode morder alguém que se aproxima como forma de proteção. No caso do tubarão-branco, em seu período de transição à vida adulta, pode morder para "experimentar".

Morte em Pernambuco

Em julho passado, um homem de 51 anos morreu após ser alvo de um tubarão na praia da Piedade. Marcelo Rocha Santos chegou sem vida ao Hospital da Restauração, para onde foi levado. Ele teve graves lesões na coxa e em uma das mãos, que foi amputada.

Apenas 15 dias depois do acidente, o despachante Everton dos Reis Guimarães, de 32 anos, foi atacado no mesmo local. Ele foi mordido na coxa esquerda e nas nádegas. O rapaz ficou internado por 12 dias e deixou o hospital com dificuldades para andar. A recuperação era estimada em cinco meses. Em janeiro, o ex-surfista profissional Sergio Noronha, de 52 anos, foi mordido por um tubarão enquanto surfava na praia da Cacimba do Padre. Ele levou 32 pontos na mão direita.

Ataques durante a prática de surfe ou outros esportes com pranchas, inclusive, foram os mais frequentes, de acordo com o ISAF 2021. Eles respondem por 51% dos acidentes no total. Vítimas dos animais enquanto nadavam correspondem 39%. O restante inclui atividades de mergulho e outras.

Além dos ataques não provocados, os pesquisadores identificaram 39 mordidas provocadas — quando o indivíduo tem interação com o tubarão de alguma forma. Outros 14 casos não foram confirmados e cinco geraram dúvida. Ao todo, foram monitorados 137 eventos.

Mais tubarões no Brasil?

Recentemente, o aparecimento de tubarões em algumas localidades preocupou a população local e turistas. Em Balneário Camboriú (SC), ao menos uma dezena de tubarões foi vista nos últimos meses. Um dos animais esbarrou em um surfista e apavorou banhistas em outubro passado. Após os casos, moradores questionaram se poderia haver relação com a extensão da faixa de areia no município, embora a secretaria do Meio Ambiente tenha dito que não era possível fazer tal ligação.

Especialistas apontam que as chances de ataque de tubarão no litoral sul do país são praticamente "desprezíveis", em razão das espécies que ocorrem na região.

Na última semana, dois tubarões foram avistados em Ubatuba (SP). Um outro tubarão foi encontrado encalhado em Laguna (SC). Biólogos explicam que a aproximação da costa tem a ver com a reprodução da espécie, que ocorre no verão. Com mais gente na água, pode-se ter uma impressão de que há mais tubarões, o que não está certo.

Apesar de ataques serem incomuns, especialistas aconselham que os banhistas tenham alguns cuidados, entre eles permanecer perto da costa, evitar locais com cardumes ou buscado por pescadores, nadar acompanhado, mas não ao amanhar e ao anoitecer.

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