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9.4.21

Confronto entre militares e criminosos reavive tensão na fronteira entre Venezuela e Colômbia

 Em 21 de março, militares venezuelanos atacaram um grupo criminoso colombiano que estava em La Vitoria, na Venezuela — o número exato de agentes enviados para a região não foi divulgado.

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Com mais de 2.000 quilômetros de extensão, a fronteira que separa a Colômbia da Venezuela é uma das regiões mais tensas da América Latina e vê há décadas migrantes cruzarem de um lado a outro.

Um novo capítulo de uma história que inclui, além de crises migratórias, tráfico de drogas e de pessoas e conflitos entre facções criminosas vem acontecendo nas últimas semanas no ponto que separa as regiões de Apure, do lado venezuelano, e de Arauca, do lado colombiano.

Em 21 de março, militares venezuelanos atacaram um grupo criminoso colombiano que estava em La Vitoria, na Venezuela — o número exato de agentes enviados para a região não foi divulgado. O embate acabou com a morte de dois militares venezuelanos, seis criminosos colombianos e mais de 40 detidos.

Além disso, estima-se que 5.000 venezuelanos tiveram de se refugiar em La Arauquita, na Colômbia. Segundo a ONG Human Rights Watch, casas foram bombardeadas na região e há relatos de massacres de civis. Caracas afirma que a ação serviu para desmontar nove acampamentos terroristas. Além do Exército, estão na região unidades das Faes (Forças de Ações Especiais) e da Polícia Nacional Bolivariana.

No auge do conflito entre o governo da Colômbia e as guerrilhas marxistas, nos anos 1970 e 1980, o fluxo na região era formado principalmente por colombianos que cruzavam a fronteira aos milhares para se refugiar na então moderna e pujante Venezuela.

Desde o início da crise humanitária recente na Venezuela, porém, a situação se inverteu — dos 5 milhões de venezuelanos que deixaram o país nos últimos anos, cerca de 3 milhões foram para a Colômbia.

Assim, centros urbanos fronteiriços do lado colombiano, como La Arauquita e Cúcuta, transformaram-se com o surgimento de albergues e pensões para atender venezuelanos, além da criação de acampamentos que abrigam centenas de pessoas que não podem pagar uma diária.

Ali também vivem os "desplazados", colombianos que tiveram que fugir de suas regiões de origem devido à ação de facções criminosas e de guerrilhas. Entre os países que não estão em guerra, a Colômbia tem o maior número de deslocados internos do mundo, com 7 milhões de pessoas nessa situação.

Elas fogem da violência no campo e costumam se abrigar nas periferias de grandes cidades, geralmente em condições muito precárias, o que faz com que a região fronteiriça seja um espaço fértil para o recrutamento de novos membros por facções criminosas.

Ainda não está claro o que aconteceu em La Arauquita, já que não há fontes de informações confiáveis na região. A fronteira é porosa, cheia de trilhas clandestinas e muito militarizada de ambos os lados. Segundo o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, os acampamentos atacados eram de dissidentes da ex-guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), desarmada em 2016.

Como Caracas costuma fazer, Padrino López acusou o presidente colombiano, Iván Duque, um desafeto, de infiltrar os dissidentes no território venezuelano. O ministro também afirmou que "a Colômbia está atuando sob comando dos EUA, e a ideia é dividir e ocupar a região".

O ministro da Defesa colombiano, Diego Molano, por sua vez, disse que o país não tem nada a ver com o assunto. Bogotá acusa Nicolás Maduro de ser condescendente com guerrilhas e facções criminosas, permitindo que atuem livremente do lado venezuelano da fronteira para gerar instabilidade na Colômbia.

Segundo a ONU, desde o final da gestão de Hugo Chávez (1954-2013) o lado venezuelano passou a receber um grande número de ex-guerrilheiros, narcotraficantes e criminosos em seu território, onde ganharam abrigo. De acordo com a ONG Insight Crime, o acolhimento de grupos criminosos na Venezuela se acentuou depois do acordo de paz de 2016 entre a Colômbia e as Farc, pois dezenas de dissidentes da ex-guerrilha cruzaram a fronteira para continuar atuando no narcotráfico. Alguns líderes do grupo, como Iván Márquez e Jesus Santrich, também migraram para o lado venezuelano.

"Para a ditadura venezuelana, interessa acolher esses grupos, porque isso desestabiliza a Colômbia e destrói os esforços do Exército colombiano de dissolver essas facções", diz Mario Varelo Martínez, da Universidad de Los Andes (Colômbia).

Uma das versões sobre o que pode ter ocorrido, sustentada pelo governo colombiano e pela oposição venezuelana, é que Maduro enviou tropas à fronteira para assegurar o espaço de grupos criminosos ligados ao regime, que teriam perdido rotas e territórios para outras facções.

De acordo com relatos de moradores da região a agentes de direitos humanos de órgãos internacionais, uma nova dissidência das Farc, chamada de Frente Décima, estaria atuando na região.

Ao ocupar locais antes controlados por grupos ligados a Caracas, sua presença indesejada teria sido reprimida pelas Forças Armadas da Venezuela.

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