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16.3.21

O profissionais da saúde têm aprendido a improvisar para manter os pacientes vivos o maior tempo possível, à espera de uma vaga de terapia intensiva que às vezes não chega

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O profissionais da saúde têm aprendido a improvisar para manter os pacientes vivos o maior tempo possível, à espera de uma vaga de terapia intensiva que às vezes não chega

RIBEIRÃO PIRES, SP (FOLHAPRESS) - "É bem angustiante. A gente está sempre driblando a situação", diz a auxiliar de enfermagem Solange Neves. "Às vezes, a gente luta, luta, luta e...", suspira, sem terminar o raciocínio.

Solange trabalha em um hospital de campanha de Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, onde sete pessoas com coronavírus já morreram esperando transferências para vagas de UTI.

Ali, os profissionais da saúde têm aprendido a improvisar para manter os pacientes vivos o maior tempo possível, à espera de uma vaga de terapia intensiva que às vezes não chega. A maior dificuldade é lidar com problemas renais associados aos quadros graves de coronavírus, além da lentidão de exames e falta de equipe não especializada em terapia intensiva.

O estado tem um sistema de direcionamento de pacientes aos hospitais, a Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviço de Saúde). Em cidades onde as vagas de UTI já se esgotaram ou que não dispõem dessas vagas, profissionais enfrentam desde o início do mês a intensificação de mortos que aguardavam nesta fila.

Em Ribeirão Pires, nove pacientes aguardavam transferência quando a reportagem esteve lá, nesta segunda-feira (15).
No fim de semana, o prefeito da cidade, Clovis Volpi (PV), decretou estado de calamidade pública. "O nosso hospital de campanha está lotado. A Unidade de Pronto Atendimento (UPA Santa Luzia) também está sobrecarregada com pacientes entubados, o que contraria os protocolos de saúde", disse, acrescentando que não sabe mais o que fazer para evitar as mortes. "A situação é alarmante."

A reportagem visitou o hospital de campanha para doentes de coronavírus na cidade. Na ocasião, presenciou o momento da morte de um paciente.

"Ele foi embora", uma funcionária comentou com outra, sobre o homem de 75 anos, paciente de tratamento de coronavírus, que havia acabado de morrer. Rapidamente, ele foi coberto e um biombo foi colocado ao redor dele.

Segundo a equipe da cidade, esse paciente específico ainda não estava na fila para a UTI. No entanto, só no hospital de campanha quatro pessoas morreram neste mês nesta situação -outros três na UPA da cidade.

Vera Lucia do Nascimento, 68, é uma das pacientes que poderia estar viva se houvesse estrutura disponível, segundo familiares.

Com medo de pegar a doença, a idosa passou o Natal e o aniversário longe dos familiares. Quando começou a sentir os sintomas, adiou a ida do hospital achando que era uma gripe comum. Além disso, temia se infectar ao procurar atendimento.

Quando finalmente foi internada, a situação se piorou rapidamente. "No domingo, ela me falou: 'filha, eu estou sentindo que estou indo, estou muito fraca'. Na quarta-feira, falaram que ela precisava ser intubada, mas não tinha o aparelho", relata a filha dela, a doméstica Rosângela do Nascimento, 49. "Como você vai lutar pela respiração sem o aparelho? Ela precisava ser intubada, precisava dessa ajuda e não teve. Como os outros que morreram."

O hospital de campanha de Ribeirão Pires conta com alguns leitos com respirador, em uma área de tratamento semi-intensivo. No entanto, há uma série de limitações que obrigam os médicos a improvisar na tentativa de manter os pacientes vivos.

"Basicamente a gente tem que trabalhar muitas vezes com a improvisação. É uma improvisação técnica, não é nada que eu tiro da minha cabeça. Algumas vezes funciona, outras vezes nem tanto. O ideal seria que tivéssemos os recursos necessários, mas não ter os recursos não vai me fazer cruzar os braços e dizer: já que não tem condição de trabalhar, não tem o que fazer", relata o médico especialista em atendimento de emergência, Antonio Carlos André de Castro.

A estrutura do hospital de campanha, porém, só consegue ajudar os pacientes até certo ponto. "A gente consegue estabilizar ele do ponto de vista da situação emergencial, mas depois os pormenores que vêm depois disso ele precisaria de uma terapia intensiva hospitalar", diz.

O principal gargalo é em relação a complicações renais, que exigem a realização de hemodiálise. "Existe o que a gente chama de medidas clínicas. É aquilo que a gente usa do ponto de vista de medicação para tentar administrar o paciente e tentar retardar a necessidade dele, por exemplo, de uma hemodiálise. O paciente precisa fazer uma hemodiálise hoje, eu consigo com medidas clínicas retardar isso por dois, três dias no máximo. Mais do que isso eu já não consigo."

Outra cidade que tem passado por situação similar é Taboão da Serra, também na Grande São Paulo. Ali, 14 pessoas morreram enquanto aguardavam transferência, segundo dados da prefeitura.

Diretora clínica da UPA na cidade onde os pacientes de coronavírus têm sido atendidos, a médica Elisa Beirão cita, além das questões relacionadas à nefrologia, a demora nos resultados dos exames.

"Quanto mais grave o doente, a chance de ele ter alterações cuja resposta precisa ser muito rápida são maiores. Às vezes, um recurso simples como esse, um laboratório, pode acabar sendo um fator complicador muito sério", diz.

"Por exemplo, o paciente está com uma anemia. Duas horas o paciente com uma anemia muito séria, eu posso perder muito. A UPA não é feita para isso, a UPA normalmente você fica no máximo 24 horas com o paciente. E quanto mais tempo o paciente fica ali e quanto mais grave ele fica, eu precisaria de todas as respostas muito rápidas."

A médica cita ainda a diferença nas características da equipe de uma UTI, diferente de unidade com generalistas como as UPAs.

Beirão também diz que sempre houve casos de demora para se conseguir as vagas, mas a atual situação é inédita até para pandemia. "De repente eu tive um paciente que demorou para sair a vaga, sempre aconteceu. Mas para tantos pacientes e você chegar a ter óbito na unidade por causa dessa vaga isso sim é novidade", conclui.

Segundo levantamento do portal G1, ao menos 60 pessoas no estado morreram à espera de um leito.

Questionado sobre a situação dos leitos no estado, o governo João Doria (PSDB) afirmou que na região da Grande São Paulo os leitos para coronavírus registraram ocupação de 90,5% em UTI e 81,6% em enfermaria.

"A sobrecarga na rede de saúde já é uma realidade em diversos locais e os serviços do SUS esforçam-se para garantir assistência adequada e oportuna a todos. Isso é feito para demandas não apenas de Ribeirão Pires, mas de todas as 645 cidades do estado", afirma nota.

Segundo o governo, o Cross atua 24 horas por dia como mediador de serviços. "Seu papel não é criar leitos, mas auxiliar na identificação de uma vaga no hospital mais próximo e apto a cuidar do caso. Nenhuma negativa parte deste serviço, que é apenas intermediário. Cada solicitação é avaliada por médicos reguladores, sendo crucial a atualização do quadro clínico, estabilização e deslocamento seguro do paciente", diz o comunicado.

No domingo (14), segundo a nota, foram registrados mais de 1,4 mil pedidos de transferência.

O governo afirmou que anunciou 1.118 novos leitos desde o começo do mês. "Mais 21 hospitais de campanha serão implantados, somando-se a outros quatro já existentes. Com isso, o número de leitos de UTI saltará para mais de 9,2 mil em abril na rede pública de saúde, 162% a mais que a disponibilidade pré-pandemia (3,5 mil)."

Sobre o caso de Vera Lucia, o governo afirma que a idosa foi transferida pelo próprio município.

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