Sancel
7.9.20

Ruído entre índios e militares ameaça legado de Rondon

O ruído no diálogo entre o governo de Jair Bolsonaro e os índios mostra uma fratura numa relação que remonta o período colonial


desconforto na videoconferência era visível. Por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, e uma equipe do Ministério da Saúde tiveram de se reunir com lideranças indígenas para debater o avanço do coronavírus sobre povos isolados da Amazônia. A reunião virtual de 17 de julho, porém, terminou em troca de acusações. Beto Marubo, Angela Kaxuyana e Sônia Guajajara disseram que a política do governo era genocida. Robson Santos da Silva, secretário especial de Saúde Indígena, chamou-os de levianos. Os índios reagiram relatando ao STF o rumo "humilhante e ameaçador" do encontro.

O ruído no diálogo entre o governo de Jair Bolsonaro e os índios mostra uma fratura numa relação que remonta o período colonial. Ao longo da história, militares e comunidades tradicionais estiveram próximos. A imagem do Exército aliado das aldeias se consolidou a partir das expedições do oficial Cândido Mariano Rondon pelo Centro-Oeste, no começo do século XX.
Pela lupa da revisão histórica, o trabalho de Rondon é visto hoje como paternalista e ponta de lança para a entrada das frentes de exploração. Mas o lema do marechal - "Morrer, se preciso for. Matar, nunca" - é valorizado, especialmente por ter sido usado em regiões onde hoje a única lei é a da bala.
Na visão de lideranças indígenas e entidades do setor, é este legado conciliador de Rondon, embora enviesado, que foi abandonado pela atual geração de generais que ocupa espaço estratégico no governo.
A atuação conflitante com interesses indígenas existe desde o início do governo, quando Bolsonaro assumiu compromisso de interromper demarcações de terras e abri-las à mineração. Em um gesto à bancada ruralista, tentou transferir o poder das demarcações para o Ministério da Agricultura, mas o STF manteve a competência com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Em plena crise sanitária provocada pela pandemia, Bolsonaro - que é capitão da reserva do Exército - vetou uma série de dispositivos de lei que definiu medidas para combater o avanço do novo coronavírus entre indígenas. O presidente barrou obrigações como a de garantir acesso universal à água potável, distribuir gratuitamente materiais de higiene e ofertar leitos hospitalares e de UTI.
Em 3 de julho, a recepção de 20 minutos do vice-presidente Hamilton Mourão a Dario Kopenawa no Palácio do Planalto também foi marcada pelo mal-estar. O líder ianomâmi viajou de Roraima a Brasília para implorar ao general, que se autodeclara indígena, a remoção de garimpeiros no território localizado no norte da Amazônia e que, em tempos de isolamento, ampliam o risco de transmissão durante a pandemia.
Uma combinação de garimpo e doenças infecciosas fez Dario sepultar, nas últimas semanas, alguns dos seus antepassados. "Não tem apoio do governo federal para barreirar o coronavírus. Os garimpeiros estão lá levando essa doença para terra Ianomâmi", disse. "Não temos respostas do poder público."
Por Estadão Conteúdo
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