Sancel
14.11.18

Tuberculose, gripe e insalubridade atingem migrantes a caminho dos EUA

Na manhã de domingo, os cerca de 5.000 centro-americanos, na maioria hondurenhos, caminharam novamente

O caminho da tropical América Central, passando da floresta à capital do México e depois ao deserto que leva aos Estados Unidos, prejudica a saúde da grande caravana migrante que suporta extremas mudanças de clima, superlotação e exaustão física.
Na manhã de domingo, os cerca de 5.000 centro-americanos, na maioria hondurenhos, caminharam novamente em direção ao sonho americano, empurrando carrinhos com crianças ainda dormindo e arrastando pesados cobertores com os quais eles enfrentaram uma noite fria nos corredores externos do estádio Corregidora, no estado central de Querétaro.
Mas assim que chegaram ao ponto em que começa a estrada para o vizinho Guanajuato, os primeiros sinais de desgaste apareceram entre os membros mais frágeis do grupo.
Uma adolescente desmaia no caminho.
“Ela está há dias com febre”, disse um dos jovens que a acompanhava, antes de carregá-la.
Alguns metros à frente, uma menina hondurenha de 4 anos desmaiou no chão com convulsões, no momento em que aguardava em uma enorme fila para embarcar em um trem de carga com sua mãe, Mirna Carolina Ayala.
“Eu não sei o que ela tem, tem dias que ela não quer comer… se algo acontecer com ela, eu morro”, disse a mulher entre soluços, enquanto os paramédicos administravam oxigênio para a menina.
A pequena Madaleli “tem febre e a glicose é alta, deve ser avaliada por uma equipe pediátrica para um possível pré-diabetes. Esta desidratada, não come direito”, disse Luis Manuel Martinez, coordenador do sistema de emergência da secretaria de Saúde local.
Ao retomar o sentido, a menina foi levada de ambulância a um hospital. Seus gritos de dor consternaram boa parte da caravana.
– O inverno se aproxima –
Em geral, as condições da caravana têm se deteriorado.
“Eles vêm de um clima quente e aqui a temperatura está ficando mais baixa, tem um desgaste maior, as pessoas não estão acostumadas a esses dias de caminhada, comendo e dormindo mal”, explica Martínez.
Para o médico, os maiores riscos são de infecções respiratórias e gastrointestinais.
“Detectamos focos de infecção por gripe e tuberculose”, disse um médico da Cruz Vermelha que pediu anonimato e passou a noite no abrigo.
De madrugada, uma sinfonia de espirros, gemidos e suspiros ressoou no acampamento superlotado do estádio, atingido por fortes correntes de ar gelado.
“A maioria de nós está com tosse, com gripe, por causa do clima muito frio. Eu não aguento mais”, disse José Castellano, um hondurenho de 20 anos que deixou o posto médico do acampamento com as mãos cheias de remédios.
O contágio de vírus e bactérias é frequente.
“Se você não leva a sua garrafa de água, você tem que pegar a do seu companheiro”, explica o jovem tremendo de frio.
Castellano sabe que a cada dia que passa o inverno fica mais perto, e as temperaturas podem ficar abaixo de zero perto da fronteira norte.
“É preciso ir preparado para que uma hipotermia não nos mate”, disse.
– Lixo e poucos banheiros –
A tuberculose afeta os pulmões, causando tosse, febre, sudorese noturna e perda de peso, segundo a Organização Mundial de Saúde.
Embora seja curável se tratado rapidamente, a tuberculose, assim como a gripe, é transmitida por tosse, espirro ou saliva.
Essas doenças podem degenerar em epidemias, provocar pneumonia ou morte.
Os migrantes dormem amontoados a céu aberto, formando um mosaico multicolorido. Junto com eles, há sempre banheiros químicos que às vezes transbordam, além da montanha de sujeira e detritos que estão gerando.
O estádio emprestou apenas dez banheiros, “cinco para homens e cinco para mulheres (…) e somos uma multidão”, lamentou Julio Díaz, eletricista hondurenho que tem um bebê com infecção ocular.
“O problema é que alguns de nós aqui somos limpos, mas outros são muito sujos, eles não têm educação, são porcos!”, disse ele, segurando um remédio.
Através dos corredores labirínticos do acampamento ouvem-se gritos de dores de cabeça, nos ossos, nos pés, nos ombros, no estômago, no peito. Há também as dores da alma.
O que me dói é o coração, sinto saudade de tudo o que amo no meu país”, diz Araceli López, mãe solteira enquanto passa um pente fino nos cabelos da filha.
“As crianças sempre se abraçam e brincam, então elas estão cheias de piolhos”, explica ela, enquanto mata os parasitas com as unhas.

(AFP)
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